Na tecitura de um mundo que clama por novos paradigmas, a voz de Catherine Walsh ressoa como um chamado à urgência. Professora, ativista e intelectual radicada no Equador, Walsh tem sido uma das principais artífices do pensamento decolonial na América Latina. Em entrevista, ela nos convida a mergulhar em um exercício que ultrapassa a teoria: o desafio de pensar-sentir-atuar a partir dos gritos e das frestas (ou grietas) que se abrem no concreto do sistema colonial-capitalista.
Para a nossa comunidade na Pluriverso, as reflexões de Walsh não são apenas conceitos acadêmicos, mas ferramentas de re-existência para quem busca o diálogo de saberes e o Bem Viver.
Decolonialidade: Um verbo no presente
Para Walsh, a decolonialidade não é um destino final ou um estado de espírito abstrato, mas uma práxis. É algo que se faz, se constrói e se semeia no cotidiano. Ela nos lembra que o projeto colonial não acabou com as independências formais; ele se metamorfoseou na “colonialidade do poder, do saber e do ser”, ditando quem pode falar, o que conta como conhecimento e quais vidas são consideradas descartáveis.
A resposta decolonial, portanto, não vem do centro, mas das margens. É um movimento constante de desaprender para reaprender, de questionar a hegemonia da “razão moderna” e validar as epistemologias ancestrais, negras e indígenas que resistiram séculos ao apagamento.
A interculturalidade como projeto político
Um dos pontos centrais levantados na entrevista é a distinção vital entre a interculturalidade funcional e a interculturalidade crítica:
Funcional: É aquela capturada pelo Estado e também pelas instituições para “gerir” a diversidade. Ela celebra a comida, a dança e o traje típico, mas mantém as estruturas de poder intactas. É uma inclusão que não transforma.
Crítica: É o projeto que Walsh defende. Onde aqui, a interculturalidade é certamente uma ferramenta de luta. Ela não busca apenas o diálogo entre culturas, mas a transformação radical das condições sociais, políticas e epistêmicas que geram a desigualdade. Contudo é o reconhecimento de que, para haver diálogo real, é preciso primeiro desmantelar os muros da opressão.
A pedagogia das frestas (Grietas)
Talvez o elemento mais poético e potente do pensamento de Walsh seja a metáfora das grietas — as frestas ou rachaduras. Em um sistema que se apresenta como monolítico e invencível, Walsh nos ensina a olhar para as fissuras.
As grietas são os espaços onde o “inédito viável” de Paulo Freire ganha corpo. São as hortas comunitárias, as escolas de saberes tradicionais, as redes de economia solidária e os movimentos que gritam contra a desumanização. É nessas frestas que a vida insiste em brotar. Sua proposta é uma pedagogia da esperança crítica: não uma espera passiva, mas um “esperançar” que atua nas rachaduras para alargar o horizonte do possível.
Sentipensar a caminhada
Ao final, Walsh nos convoca ao sentipensar (termo que resgata das tradições camponesas da Colômbia via Orlando Fals Borda). Não se pode mudar o mundo apenas com o intelecto; é preciso o coração, a corpa e a ancestralidade.
Para a Pluriverso, o pensamento de Catherine Walsh é um espelho e um mapa. Ele reafirma que o diálogo de saberes só é potente quando assume seu caráter político e decolonial. Que possamos, como sugere Walsh, continuar escutando os gritos do mundo e, com ternura e firmeza, cultivar as frestas por onde a luz do Pluriverso começa a entrar.
Leia a seguir a entrevista completa em espanhol, concedida pela professora Catherine Walsh aos pesquisadores Lennon Oliveira Matos e Iván David Sanabria González. Mais do que um texto teórico, esta entrevista é um chamado ao “sentipensar”: um exercício de integrar razão e emoção para construir um mundo onde caibam muitos mundos.
Este artigo foi elaborado pela Juh Barbosa (@juhbarbosa na Pluriverso), da redação da revista Pluriverso buscando trazer para o nosso público a entrevista concedida pela intelectual-ativista Catherine Walsh aos pesquisadores Lennon Oliveira Matos e Iván David Sanabria González e publlicada na Revista de estudos culturais.

