Um dos maiores ícones da política latino-americana, Pepe Mujica estava aflito com a urgência da crise climática do planeta. Em um mundo onde a soberania dos mercados prosperou, o político uruguaio alertou para a necessidade de uma nova governabilidade global solidária e cooperativa.
Não há mais tempo: “é inadiável que jovens discutam este mundo”, ressaltou o ex-presidente uruguaio em entrevista dada ao jornal El País, da Espanha, em sua chácara em Montevidéu.
Publicamos essa matéria que síntesa os principais temas abordados pelo Pepe Mujica naquela entrevista.
Ela traz reflexões e perspectivas sobre a crise climática global e a necessidade de uma abordagem política colaborativa para combater os desafios que enfrentamos como sociedade.
Os impactos da pandemia na economia mundial
Mujica considerava que o fim da pandemia nos mostrou que, como humanidade, temos muitos pontos fracos. Um deles é que a propriedade do conhecimento tinha muito mais valor do que a necessidade humana de contribuir para poder coletivizar o conhecimento. Os sistemas de vacinas poderiam ter sido ampliados muito mais rapidamente, e isso acabou custando milhões de vidas.
Para ele, a ciência não falhou, o que falhou foi a política. Foi a política a que foi incapaz de coagir o sistema econômico a fazer o que deveria ser feito rapidamente. Além disso, a fome no mundo aumentou em 150 milhões de pessoas. Hoje, mais de 800 milhões de pessoas vivem com fome.
Isso teria que ser confrontado com um número que não gerenciamos, sobre quanto vale o que poderíamos chamar de economia de luxo ou economia do esbanjamento, para demonstrar a nós mesmos que, na verdade, recursos existem, mas não os utilizamos como deveríamos. Por um lado, há fome, mas também há cálculos de que 25 ou 30% dos alimentos são jogados fora.
Mujica
A responsabilidade é política, mas a política muitas vezes não pode agir devido aos interesses conflitantes por trás dela. A humanidade alcançou uma civilização notável, mas não pode controlá-la ou redirecioná-la. A globalização atual é liderada por interesses de mercado, com a política sendo um mero espectador.
Para recuperar seu papel, precisamos de um governo mundial baseado em abordagens técnicas e científicas. Lamentavelmente, isso é difícil de alcançar devido aos interesses nacionais e à soberania dos países. Empresas transnacionais muitas vezes têm mais poder econômico do que os Estados. Vivemos em um mundo sem uma direção política clara.

O mundo rumo ao holocausto ecológico
Talvez, esta seja a última globalização do homem, se não a corrigir. Houve várias, porque Roma foi uma globalização, a história do império chinês também. Mas todas tiveram direção política. Esta é uma globalização que está sendo realizada pelos interesses do mercado, onde a política é um pálido espectador que vai atrás.
Mujica destacou a falta de tempo da humanidade para reparar os danos causados ao planeta, que pode levar a um holocausto ecológico. A ciência já alertou sobre o aumento dos fenômenos adversos há mais de 20 anos, mas a política falha em tomar as medidas necessárias.
Precisamos de um acordo mundial. Se olharmos para a história das Nações Unidas, está sendo arrasada por nós. Estamos longe de ter o que precisamos, uma espécie de conselho científico que tome algumas medidas capitais que assumamos.
Além disso, segundo ele, era muito provável que a humanidade esteja utilizando nada menos do que 2,5 milhões de dólares por minuto em gastos militares. A fabricação de armas se torna ferramenta diplomática e econômica, pelo lobby da insústria armamentísticas. Se permitirmos que influencie as decisões políticas, estamos em perigo.
Considero que o homem não saiu da pré-história. Enquanto tivermos que utilizar a guerra como uma expressão do fracasso da política, não teremos saído da pré-história.
Pepe, como era conhecido carinhosamente, ainda enfatizava a importância das novas gerações assumirem a responsabilidade de discutir e mudar a cultura em relação a questões ecológicas e de guerra.
Não há nada mais importante do que os jovens discutirem este mundo! Temos que mudar a cultura.
O que é a cultura?
Mujica falou, ainda, sobre a importância da cultura em nossas vidas. Para ele, ela constitui um repertório que nos ajuda a entender e respeitar o mundo ao nosso redor e a nos sentirmos integrados a ele. Além disso, a cultura é uma necessidade que nos ajuda a viver e representa o amor à vida.
Ele destacava que pertencia a um tempo em que predominava o racionalismo, mas que atualmente a ciência do comportamento humano mostra que somos criaturas mais emocionais, e que muitas vezes tomamos decisões inconscientemente e justificamos posteriormente com argumentos conscientes.
Na solidão, fiz esta pergunta para mim mesmo: Nós, sapiens, o que somos? Qual é o disco rígido que a natureza nos deu e quais são os fatores adquiridos por meio da civilização, da cultura, do tempo que nos cabe viver?
Nesse sentido, para ele, homem é um animal social e que vive em grupos há milhares de anos devido ao seu instinto de cooperação. Esse instinto permitiu a criação de sociedades e, consequentemente, da política como forma de manter a comunidade. Apesar disso, o indivíduo possui uma parcela de egoísmo que pode gerar conflitos. A civilização, portanto, é fruto da cooperação e da necessidade de manter a comunidade unida.
A civilização é filha da cooperação.
Cooperação para América Latina
A entrevista destaca os desajustes sociais e econômicos presentes na América Latina, que possui uma história marcada pela polarização social desde o início, com uma classe dominante e uma grande população pobre.
Mujica defendeu a necessidade de construir outro sistema de organização humana, apoiando a autogestão e a cogestão empresarial baseadas na cooperação. Ele acreditava que o capitalismo tem aspectos positivos que devem ser mantidos, mas que é preciso que os cidadãos se apropriem responsavelmente do que está em jogo em suas vidas.
É preciso aceitar o desafio da sociedade de mercado e convencer as grandes maiorias a construir outro sistema de organização humana. É preciso apoiar muito a autogestão, a cogestão, outro sistema de funcionamento empresarial, baseado na cooperação.
O que é ser rebelde nos dias atuais?
Um dos maiores símbolos da esquerda latino-americana fechou sua entrevista, mais uma vez, expondo sua visão crítica e contestadora do que hoje é hegemônico no modo de vida ocidental. Visão que ele incorporava em sua prática política e pessoal e que já lhe rendeu títulos e críticas. Mas que, indubitavelmente, o fizeram um ícone político de fama mundial, objeto de vários livros e reportagens, que desafiava o establishment político e trazia de volta a questão da relação entre sabedoria e poder.
Não seguir as chaves da cultura contemporânea. Sou filosoficamente destoante, uma espécie de neoestoico com definições terminantes. Pobre é aquele que precisa de muito. Se você precisa de muito, está frito, pois não vai conseguir nada. Ou, como dizem os aimaras: pobre é aquele que não tem comunidade. Eu sou rico, tenho muitos companheiros e para viver tenho de sobra.
Pepe Mujica
Edição de Simone Machado, mestre em Teoria da Literatura e literatura comparada (UERJ) e parte da equipe editora da Revista Pluriverso, a partir de material publicado no site Outras Palavras, com tradução feita pelo IHU Online.

