Diante da crise ecológica global, uma pergunta incômoda ecoa com urgência: o que aconteceria se as comunidades originárias desaparecessem? A resposta é drástica e imediata: o planeta morre. Longe de ser um exercício de retórica apocalíptica, a perda dos povos originários significa a destruição direta dos mecanismos que hoje sustentam o equilíbrio climático, a pureza do ar e a estabilidade da biosfera. Embora representem uma parcela pequena da humanidade – algo entre 5% e 6% da população global -, os povos indígenas gerenciam territórios que abrigam cerca de 80% da biodiversidade remanescente da Terra.
Esses povos indígenas, junto a um grupo numericamente menor ainda de ribeirinhos e ativistas, são a nossa última linha de defesa da floresta. O extermínio dessas comunidades e de outros defensores da terra, a invasão e usurpação dos seus territórios para o desmatamento e a implantação de monoculturas, a mineração predatória ou a sua transformação em terras de pastagem ou em empreendimentos turíticos milionários, não são apenas crimes humanitários; representam o desmantelamento das barreiras físicas que nos separam do colapso planetário. E aqui é urgente lembrarmos, como nos alertou o cientista e ativista Noam Chomsky, em entrevista na primeira edição da revista Pluriverso, “gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática“.
Dados científicos confirmam o impacto dos povos originários contra o desmatamento
A ciência ocidental contemporânea começa a validar numericamente o que a sabedoria ancestral professa há milênios. Durante a conferência realizada na Zona Azul da COP30, segundo registros da cobertura jornalística de Antônio Marinho Piratapuya, pesquisadores e lideranças apresentaram dados contundentes sobre essa correlação vital. Wayne Walker, vice-presidente de Ciências do Woodwell Climate Research Center, demonstrou por meio de análises espaciais que nada menos do que 89% da perda de cobertura florestal na Amazônia nos últimos 25 anos ocorreu fora de territórios indígenas, enquanto meros 11% aconteceram dentro de suas fronteiras.
Esses territórios funcionam como verdadeiras fortalezas climáticas, estocando cerca de 31 bilhões de toneladas de carbono acima do solo – o equivalente a três anos de todas as emissões globais de combustíveis fósseis. Em uma escala global, estimativas analisadas pela pesquisadora Alokya Kanungo, da organização Earth.Org, apontam que as florestas sob manejo indígena e tribal resguardam em torno de 34 bilhões de toneladas métricas de carbono, mantendo índices de desmatamento significativamente inferiores à média das florestas desprotegidas.

Apesar de sua eficácia incontestável na proteção do clima, os povos originários enfrentam um cenário de profunda injustiça e vulnerabilidade sistêmica. O relatório global “A situação mundial dos povos indígenas“, elaborado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DESA) da ONU e debatido no Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, revela um paradoxo alarmante: as comunidades responsáveis por salvaguardar a maior parte da vida natural do planeta recebem menos de 1% do financiamento internacional voltado para a ação climática.
Essa assimetria financeira é acompanhada pela exclusão política e pela imposição de projetos econômicos sem o consentimento livre, prévio e informado dessas populações, forçando-as a enfrentar sozinhas as pressões predatórias do garimpo, da extração madeireira e da expansão agropecuária. No Brasil, por exemplo, o avanço da mineração ilegal em terras indígenas registrou um crescimento vertiginoso de 625% entre os anos de 2011 e 2021, gerando rastros severos de destruição ambiental e contaminação hídrica.
Consequências biológicas e a perda de saberes ancestrais

As consequências desse avanço predatório extrapolam a geografia física e atingem a própria estrutura existencial e biológica do planeta. Como aponta Alokya Kanungo ao analisar os impactos sobre etnias como os Yanomami, Kayapó e Ashaninka, a destruição das florestas rompe o controle dos microclimas locais e elimina os sistemas tradicionais de saúde baseados em plantas medicinais. Citando investigações epidemiológicas de cientistas como Wilcox e Ellis, a pesquisadora adverte que a degradação desses ecossistemas atua diretamente na proliferação de enfermidades infecciosas e no aumento drástico da mortalidade infantil por desnutrição e malária.
Esta situação, vem empurrando comunidades outrora autossuficientes para situações crônicas de dependência e vulnerabilidade alimentar. Não se trata apenas da perda de árvores; trata-se do colapso de redes complexas de conhecimento e tecnologias agrícolas e de manejo que não estão registradas em livros ou na internet, mas codificadas na oralidade e na prática cotidiana.
Essa erosão multidimensional foi sintetizada de forma tocante por Fany Kuiru, coordenadora-geral da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica). Em seu pronunciamento, ela lembrou que, para além da perda biológica, a queda de cada árvore representa o desabamento da memória coletiva, das rotas ancestrais e dos espaços sagrados. O enfraquecimento dessa governança territorial empurra a biosfera para um limiar perigoso.
Projeções climáticas indicam que a omissão diante da integridade indígena sujeitará os territórios amazônicos a aumentos térmicos severos, elevando a proporção de áreas sob calor extremo (acima de 39 °C) de 11% para 51%, além de expandir o risco de incêndios florestais catastróficos para 60% das terras originárias. Como reforça Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, o reconhecimento dos territórios e a demarcação em larga escala não constituem concessões políticas secundárias, mas sim uma necessidade de sobrevivência para o ecossistema e o clima global.
Insegurança jurídica e a violência contra os povos originários no Brasil

No cenário sul-americano, e especificamente no Brasil, essa crise ganha contornos de violência explícita legitimada por lacunas e retrocessos jurídicos. Conforme relata a jornalista Carolina Bataier para o Brasil de Fato, entidades representativas – incluindo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Comissão Arns e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) – se uniram em um manifesto público para denunciar a escalada de ataques armados e campanhas de desinformação contra os povos originários, a exemplo dos ataques sofridos pelos Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul.
As organizações coincidem em apontar que a insegurança jurídica gerada por medidas legislativas como a Lei 14.701, associada à tese do marco temporal, serve de combustível para investidas violentas de setores ruralistas. O alerta emitido por essas instituições ecoa como um ultimato para a sociedade contemporânea: o extermínio dos povos originários significa o sepultamento do nosso próprio futuro coletivo.
Os caminhos na crise
Garantir a autonomia e a integridade das comunidades indígenas não pode mais ser interpretado como um dever puramente moral ou uma causa humanitária isolada. Trata-se, minimamente, de uma obrigação climática incontornável para evitar o colapso sistêmico da Terra. Enquanto as estruturas de governança global continuarem a marginalizar as vozes e os modos de vida que sustentam o equilíbrio da biosfera há milênios, qualquer tentativa de conter o aquecimento global falhará por negligenciar as verdadeiras raízes da conservação. Proteger o pluriverso de saberes e existências originárias é a única via para que a vida permaneça viável.
Os dados são claros, duros e difíceis de encarar, pela sua gravidade, mas a assimetria de poder entre os que defendem a terra e aquele que tomam as decisões que impactam massivamente pessoas e territórios, é abissal. Todavia, não é mais possível, hoje menos do que nunca antes, deixar-se imobilizar pelo espanto e pelo tamanho do desafio. Sabemos que há, para a grande maioria de nós, ainda o desafio de superarmos a barreira da compreensão, em um combate não menos desigual, contra a desinformação, o negacionismo e as chamadas fake news, como também contra um senso comum atravessado pela colonialidade do poder e do saber, e pelo pragmatismo liberal e desenvolvimentista.
Junto com as lutas por autonomia, integridade territorial e respeito aos saberes e direitos das comunidades originárias, é fundamental caminhar no sentido de uma mudança mais complexa, profunda e, ao mesmo tempo, cotidiana. Isto é, no entendimento de que o debate não é apenas programático, mas um que se dá em meio a uma profunda crise civilizatória.
É, assim, tempo de reaprender a viver e a conviver, de repensar nosso modo de estar em relação com o mundo e com o outro. Como nos convidava a arte educadora Camila Leite, a partir da sua leitura do Ailton Krenak, é preciso pensar o que nos nutre, o que nos toca e nos mobiliza, para adiarmos, assim, hoje, a própria ideia do fim do mundo.
Julia Barbosa é parte da Equipe Editorial da Revista Pluriverso.
Claudio Barría é músico, doutor em Educação pela UFF, pesquisador do NIRA/FFP/UERJ e membro fundador do Coletivo Pluriverso e do Conselho Editorial da Revista Pluriverso.
(*) para a criação deste conteúdo foram utilizados recurso de IA generativa nos processos de pesquisa e sistematização de dados e fontes.






