Circo social e os tempos da redemocratização no Brasil
Aconteceu no século passado, tão logo soaram os últimos acordes dos tristes tempos em que o país esteve sob uma ditadura militar, quando a mordaça começou a ser afrouxada e as pessoas sentiram novamente o tom, o sabor da liberdade de viver. Foi então que os movimentos sociais, que se formavam em guetos, às escuras, porque era proibido se mostrar e ser, lançaram-se às claras, sob o sol, sentindo na pele o vento e respeitando as cores, as diferenças, costurando e bordando novamente o tecido social para recriar o sentido de ser livre. Não à toa, o período em que mais houve criação de ONGs foi nessa época, fim dos anos 1980, início dos anos 1990.

Felizmente é desse tempo feliz que vamos falar. Porque naquele caldeirão de cultura, arte, debates sobre políticas públicas, educação, saúde… foi ali que surgiu também o conceito de Circo Social, nosso tema de hoje.
“O Circo Social sonha com um mundo diferente, integrado e solidário, que se aceite como ele é: o lugar de todos – redondo, itinerante e a céu aberto”,
diz o texto de apresentação do site da Rede Circo do Mundo Brasil. (RCMBr)

A ideia aqui é descobrir, com a ajuda do arte educador, músico e pesquisador chileno Claudio Barría Mancilla, atual presidente da Rede Circo do Mundo Brasil, um pouco da história deste fenômeno social de tanta importância para a cultura do país.
Centenas de organizações, nas cinco regiões do Brasil e no mundo todo, trabalham hoje com o conceito de Circo Social, servindo como trampolim para a cidadania de milhares de crianças e jovens.
“A potência simbólica do circo como espaço de libertação é enorme, mas não só como ferramenta para a assistência, é enorme para a educação das pessoas. Trata-se de um conceito epistêmico, de educação pela arte. Não é ensinar a fazer circo. É como, através da arte, as pessoas conseguem ensinar a sermos melhores humanos e sermos parte de tudo que somos parte”,
disse Barría na palestra para o Curso CirFormando, de Educadores de Circo Social organizado, em meio à Pandemia global do Coronavirus pela Escola Pernambucana de Circo (EPC), uma das fundadoras da RCMBr.
A origem de um conceito que organiza uma diversidade de práticas.
Barría prefere não situar uma data para o surgimento do Circo Social. É certo, porém que foi ali, exatamente no caldeirão de liberdade do período pós-ditadura, que surgiu o espaço “onde o ético e o estético não se dissociam”, onde “histórias se consolidam como uma ação coletiva que se estrutura”.
“E podemos dizer que nasceu uma coisa nova. É essa concepção que nos interessa”, disse ele.
Lembrando o vasto e complexo conceito de campo, criado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu ( 1930-2002) – que define conceitos, categorias, protocolo de ações, um tecido social que nos une e que produz suas verdades simbólicas – Barría se propõe a fugir da “ideia pesada de achar o pai da criança, a data de nascimento, o dono”. O Circo Social está em movimento. É uma forma de se misturar o circo com a ética, com o compromisso de transformação social.
“Eu entendo o Circo Social como uma espécie de software livre, que tem uma base, uma estrutura, mas cada um pega e lança sua própria distribuição. Para uns, o afluente “assistência social” foi mais forte, e essas pessoas vêm a parte circense como técnica. Para outros, a educação popular foi o fator mais potente, e esses formam os circos sociais mais críticos, pensativos. Tem ainda aqueles para quem fica difícil diferenciar o Circo Social de uma escola de circo. Sempre tem alguém que diz que Circo Social é para pobres, o que é uma ignorância. O circo sempre foi lugar do outro, do negado, do não aceito socialmente. E essa é uma das potências pedagógicas que deu origem ao Circo Social”, disse Barría.
Educação popular e as diversas vertentes do Circo Social
Ele fala de trajetórias mãe, que dão origem ao conceito. Entre elas, movimentos sociais, artístico culturais, tradições de circo de lona itinerante, de rua e de escola, e também reconhece uma forte influênca de valores da teologia da libertação e do movimento de educação popular.
é por ai que surge outro autor citado por Barría, Paulo Freire, mestre da educação popular, aquele que fez questão de dizer: “Professor que não aprende, não ensina”. Pois é essa também, a educação popular, uma das fontes mais ricas que ajudam a entender o surgimento do Circo Social.

Fato é que cada organização trabalha com sua própria trajetória. O Circo Social é potente, por isso é um instrumento para trabalhar com crianças em situação de rua, crianças que moram em favelas, mas não é uma metodologia assistencial. O que ele faz é cumprir um papel deixado vazio pelas metodologias da educação tradicional.
“O Circo Social não é uma metodologia, é uma concepção epistêmica de processos de ensino-aprendizagem para a construção de cidadania, e cabe aos atores envolvidos definir o que é cidadania. Não há valores estanques, há valores em construção”, completa Barría em sua reflexão de percepção da análise do processo histórico de construção do Circo Social.
Para entender um pouco mais da abordagem que ele mesmo define como não linear e decolonial, da história do Circo Social, assista a palestra do Barría no registro da transmissão ao vivo em fevereiro de 2021, no canal da Escola Pernambucana de Circo:
(*) Clique na imagem abaixo pra assistir.
Te convidamos a ler também na Revista Pluriverso a entrevista Karla Concá: ‘Uma mulher que gargalha libera a garganta de muitas mulheres’, delicisamente escrita pela Amelia que, em um papo de mulher, se questiona: O que é ser mulher palhaça no universo da palhaçaria?
Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável e colabora aqui na Revista Pluriverso.
Fotos: Arquivo Se Essa Rua Fosse Minha e Walter Mesquita.
Imagem de capa: colagem de Ju Barbosa e Claudio Barría, do Coletivo Pluriverso, com fotos de arquivo das organizações Se Essa Rua Fosse Minha, Escola pernambucana de Circo, Lona das Artes, ICA e outras da Rede Circo do Mundo Brasil.






