Por muito tempo, o debate sobre a segurança pública no Rio de Janeiro foi sequestrado por narrativas superficiais e estatísticas produzidas sem o devido ancoramento na realidade dos territórios impactados. Levantamentos de opinião pública conduzidos de forma apressada costumavam reduzir a complexidade da vivência comunitária a respostas binárias, chegando a propagar, logo após uma das maiores chacinas da história recente do estado, que 64% dos moradores de favelas aprovavam as operações policiais. Esse tipo de dado, divorciado do cotidiano e capturado sob o signo do medo, tem servido frequentemente como salvo-conduto para a perpetuação de uma política de segurança baseada no extermínio e no confronto armado.
No entanto, o lançamento do denso estudo intitulado Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado? estabelece um novo paradigma metodológico e analítico ao demonstrar que, quando a escuta é qualificada e conduzida a partir de dentro, 73% dos habitantes dessas localidades manifestam discordância em relação a esse modelo bélico de intervenção estatal.

A legitimidade dessa descoberta reside fundamentalmente na arquitetura de sua construção, concebida, desenvolvida e realizada por uma coalizão de organizações da sociedade civil profundamente enraizadas no tecido comunitário: a Redes da Maré, a Frente Penha, o Instituto Raízes em Movimento, o Instituto Papo Reto, o Fala Roça e a associação A Rocinha Resiste.
Afastando-se das enquetes instantâneas da mídia corporativa, a pesquisa mobilizou uma metodologia mista robusta, combinando uma etapa qualitativa de oito grupos focais com setenta e nove adultos e uma expressiva etapa quantitativa que realizou quatro mil e oitenta entrevistas estruturadas presenciais.
O diferencial crucial do levantamento foi o emprego de quarenta pesquisadores de campo que são, eles próprios, moradores do Complexo do Alemão, do Complexo da Penha, da Maré e da Rocinha. Essa identidade compartilhada rompeu as barreiras do medo e da desconfiança que costumam silenciar a população quando o assunto é a violência urbana, permitindo um diálogo legítimo, olho no olho, capaz de captar os matizes de uma opinião pública processual e heterogênea.
A rotina de riscos e a seletividade geográfica
A rejeição majoritária ao atual modelo de policiamento e ‘combate ao crime organizado’ é a resposta direta a um cotidiano marcado pela universalização do risco e pela seletividade geográfica da violência oficial. De acordo com indicadores do Instituto Fogo Cruzado compilados na pesquisa, os quatro territórios estudados concentram 11% de todos os tiroteios decorrentes de ações policiais na capital fluminense desde 2017. Junto com isso, essas mesmas comunidades concentram 19% do total de indivíduos baleados nessas ocasiões.
O peso dessa realidade varia segundo a geografia urbana e a conveniência política do Estado: nos complexos da Zona Norte, como Alemão, Penha e Maré, as incursões são sistemáticas, prolongadas e integradas de forma violenta à rotina dos moradores.
Um cidadão residente na Maré, por exemplo, enfrentou noventa e duas operações policiais entre 2023 e 2025, o que equivale a uma média extenuante de mais de trinta confrontos por ano. Na Rocinha, situada na Zona Sul e inserida em uma região de forte apelo turístico e especulação imobiliária, as operações assumem um caráter mais episódico, embora guardem a mesma carga de letalidade e terror quando ocorrem.
Violação cotidiana de direitos fundamentais
A oposição expressa por 73% da população não decorre de um posicionamento ideológico abstrato, mas sim de uma leitura informada pelo acúmulo de violações concretas aos direitos fundamentais mais básicos.
Entre os 61% de entrevistados que relataram ter sofrido impactos diretos dessas ações, a privação do direito de ir e vir desponta como uma queixa quase universal.
Mais da metade desse contingente vivenciou episódios de agressão física, verbal ou psicológica, acompanhados de humilhações por parte dos agentes de segurança. Quase metade das famílias testemunhou a invasão arbitrária de suas residências, automóveis ou estabelecimentos comerciais, enquanto mais de um terço foi submetido a revistas abusivas de pertences pessoais.

O horror ganha contornos trágicos quando um quinto dos afetados aponta a ocorrência de ferimentos e outro quinto relata a perda de vidas nas operações, somando-se ainda a denúncias de extorsão financeira que alcançam um sexto dos respondentes. A crítica das comunidades revela que as incursões policiais contemporâneas são percebidas muito menos como um mecanismo de proteção e muito mais como uma engenharia de gestão violenta do território.
Para decifrar por completo a subjetividade política desses espaços, o estudo debruça-se sobre os 25% de moradores que declararam aprovar ou aprovar parcialmente as operações policiais, evidenciando que a favela está longe de ser um bloco de pensamento homogêneo. A análise aprofundada demonstra que esse apoio não se traduz em uma adesão entusiástica ou irrestrita ao padrão de atuação das polícias, mas sim em um consentimento resignado.
Trata-se de uma resposta condicionada pelo medo, pelo trauma e pela percepção de um desamparo absoluto frente às dinâmicas dos grupos civis armados locais. Em muitos relatos coletados nos grupos focais, os moradores mais velhos manifestam preocupação com o enfraquecimento das mediações informais e das regras históricas de convivência comunitária, mencionando a visibilidade crescente de indivíduos muito jovens portando armas e o uso explícito de substâncias ilícitas em áreas públicas. Diante de uma ausência histórica de alternativas oferecidas pelo Estado, parcelas da população acabam aceitando a violência espetacularizada das operações como a única ferramenta visível capaz de impor algum freio à desordem percebida, operando sob a lógica de escolher o confronto diante do abandono total.
As marcas de raça, classe e território
A percepção dos moradores sobre a violência estatal é atravessada de forma inescapável pelas dimensões de raça, classe e território. Entre as pessoas entrevistadas que se declaram pretas, 70% afirmam que existe um viés racista explícito no planejamento e na execução das operações policiais nas favelas. Essa leitura é compartilhada por 65% dos indivíduos que rejeitam as incursões e permanece elevada, em 53%, mesmo entre aqueles que afirmam apoiar a realização das operações. Nos segmentos da amostra onde o racismo não é nomeado de forma direta, o diagnóstico desloca-se para uma aguda consciência de discriminação social e geográfica.
Há um entendimento consensual de que o simples fato de habitar uma favela converte automaticamente o cidadão em um alvo preferencial da suspeição policial, consolidando a certeza coletiva de que o tratamento dispensado pelo braço armado do Estado jamais seria replicado em bairros de classe média ou alta da cidade.
Responsabilidade política e a exigência de direitos
Ao apontar as responsabilidades pelo colapso humanitário decorrente dessa política, a população demonstra uma nítida compreensão da engrenagem institucional, com 86% dos entrevistados identificando o Governador do Estado, Cláudio Castro, como o principal responsável pela condução e pelas consequências das operações policiais nas favelas.
Essa responsabilização política unifica os diferentes posicionamentos internos, sendo sustentada por 88% dos que discordam e por 88% dos que concordam com as ações. Os dados expostos pelo relatório desmontam a tese que sustenta a utilidade pública dessas incursões, uma vez que predomina a avaliação coletiva de que as operações apenas agravam a insegurança ou deixam o cotidiano inalterado no que tange à proteção das famílias.
O clamor que emerge das comunidades e periferias do Rio de Janeiro, capturado com rigor e sensibilidade pelas organizações populares, não pede o aperfeiçoamento técnico do combate bélico, mas sim uma mudança estrutural urgente de paradigma, exigindo que a segurança pública deixe de figurar como um palanque político fundado no espetáculo da morte e passe a ser garantida, efetivamente, como um direito humano inviolável.
No artigo Favela é centro de Kdu dos Anjos, publicado aqui na Revista, vemos que a favela é, pela arte, pela moda, pela horta, pelo teatro, pela dança, mais centro do que o centro. Ela precisa ser respeitada e protegida e não ser transformada em um espetáculo de preconceito, violência e morte.
Julia Barbosa é parte da Equipe Editorial da Revista Pluriverso.
(*) para a criação deste conteúdo foram utilizados recurso de IA generativa nos processos de pesquisa e sistematização de dados e fontes.






