Já parou para pensar que o funk que explode hoje nas caixas de som pode ter uma “alma” que viajou centenas de anos para chegar até aqui? Ainda hoje, muita gente vê o funk apenas como produto da influência norteamericana, e meio que subproduto da tecnologia digital. Mas a verdade é que o seu “DNA” é carregado de uma história profunda e ancestral. Neste artigo, vamos conectar as batidas eletrônicas das periferias brasileiras aos cantos dos africanos escravizados. A ideia é mostrar que o funk como uma tecnologia de r-existência que reinventa sentidos, uma cultura enraizada que se recusa a ser silenciada.
O “Beat” de 130 BPM: Um encontro com os vissungos
Uma das descobertas mais impressionantes sobre o funk contemporâneo vem do estudo dos vissungos. Mas o que é isso? Os vissungos eram cantos entoados por trabalhadores pretos escravizados na região de mineração em Minas Gerais. Eles serviam como uma forma de comunicação e resistência dentro daquela realidade brutal.
Ao analisar o disco Canto dos Escravos, gravado em 1982 por nomes icônicos como Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme, pesquisadores notaram algo inacreditável no “Canto número 11“. Thiago Barbosa Alves de Souza é doutor em Musicologia pela USP e também um digital influencer, mais conhecido como Thiagson. Ele simplesmente sobrepôs o Canto 11 com a uma batida de funk. O resultado é surpreendente.
O canto XI é um canto modal com melodias simples de apenas cinco notas conjuntas. Exatamente como muitas bases de funk hoje, possui uma base rítmica sincopada que se repete a cada quatro pulsações. Além disso, o canto está exatamente em 130 BPM (batidas por minuto), que é o padrão rítmico consagrado do funk atual.
Assista o short e ouça você mesmo:
A semelhança é tão exata que os sons se encaixam perfeitamente, sem necessidade de ajustes. Isso mostra que, embora a tecnologia tenha mudado, a pulsação da música preta permanece viva. Como disse o Thiagson no vídeo, talvez a realidade não tenha mudado tanto assim.
A clave ancestral: Do terreiro para o Fluxo
O músico, antropólogo e pesquisador Paulo Menotti Del Picchia (Meno Del Picchia) reforça na sua tese de doutorado “A Neblina e o Fluxo: o funk nos corpos elétricos da quebrada“, que a batida que identificamos imediatamente como funk tem raízes diretas no Maculelê da Capoeira e nos Toques de Congo do Candomblé. Para ele, o funk é um “entroncamento histórico” onde as tradições afro-brasileiras se reinventaram e absorveram elementos do rap norte-americano.
A tese investiga como o funk contemporâneo une o que ele chama de “vivências na rua” com as “cybervivências”. Em outras palavras, o gênero usa ferramentas modernas — como softwares — para dar continuidade a uma tradição ancestral. E é isso que confere atualidade política a essa expressão cultural e artística.
Ele também aponta alguns desafios que o movimento do funk enfrenta. Entre outros, está o preconceito acadêmico. Ele faz com que, enquanto antropólogos e sociólogos estudam o funk, músicos acadêmicos em universidades ainda tendem a ignorar ou rejeitar o tema. Outro desafio é a barreira da mídia tradicional. De fato, o bloqueio de muitos curadores de rádio e TV faz com que, mesmo o funk dominando a internet, tenha pouco espaço na grande mídia.
Del Picchia reforça que o funk não é apenas entretenimento. Para ele é um fenômeno que envolve estética, política, ocupação do território urbano e uma economia local pulsante.
Funk, r-existência e a estética descolonial
Já no artigo Geopoética dos sentidos, a/r/tografia e o patrimoniável em chave descolonial: por uma poética do Sul, Barría Mancilla insere o funk carioca no contexto de uma estética descolonial ao compreendê-lo não apenas como entretenimento periférico, mas como uma manifestação autêntica de resistência, subversão e produção de conhecimento a partir das margens.
“Da eleição do repertório de hits se dando de forma totalmente independente da programação radiofônica e dos interesses das gravadoras à predominância da batida umbanda-maculelê sobre o Miami bass, o funk carioca é uma história de liberdade inventiva cuja importância ainda havemos de saber reconhecer.“
Caetano Veloso
Desta forma, e em diálogo com a abordagem de Del Pichia e tantos outros, o funk é entendido como uma prolífica fonte de produção estética e simbólica. O autor posiciona o funk carioca ao lado de outras grandes manifestações da cultura popular da América Latina e do Caribe, como os cultos, rituais e festividades tradicionais. Rompendo com o paradigma eurocêntrico que tende a marginalizar essas expressões, o artigo reconhece o funk como uma das mais ricas fontes de produção estética e simbólica contemporânea. O funk cria seus próprios códigos, visualidades e sonoridades.
Mancilla aponta que essas manifestações populares — e o funk se enquadra perfeitamente aqui — funcionam como uma expressão de “implícita subversão cultural”. Assim como os povos latino-americanos subverteram e reinventaram os sentidos do cristianismo colonial em suas festas sincréticas, o funk subverte a linguagem e a estética dominantes para dar sentido à realidade urbana contemporânea das favelas e periferias.
O funk e a Geopoética dos Sentidos
Dentro do conceito de “geopoética dos sentidos”, trabalhado por Mancilla, o funk é visto como uma experiência que está profundamente ancorada no seu território e no corpo de quem o vivencia. Ele representa um lócus de enunciação — o lugar de onde se fala e se sente o mundo. Isso fundamenta a “Poética do Sul”: uma estética que ressignifica o conceito de “aura da arte” (de Walter Benjamin), tirando a aura do museu elitista europeu e encontrando-a na força vital, na memória e na identidade pulsante do povo carioca, brasileiro e amefricano.
Na perspectiva descolonial do artigo, o funk carioca tenciona as ideias tradicionais sobre o que merece ser considerado patrimônio. Assim, reconhecer o funk como algo “patrimoniável” é um ato político e descolonial. Significa validar os afetos, a memória e as táticas de sobrevivência das populações negras e periféricas que a colonialidade sempre tentou invisibilizar.
Em resumo, o funk carioca é uma prática vivida de descolonização. Trata-se de um fazer capaz de ativar territórios, reconfigurar o que entendemos por arte legítima. Em tempo, reivindica noções outras de memória e patrimônio a partir do Sul global.
O passinho: O corpo como tecnologia de elite
Se a música carrega o DNA rítmico, a dança é a prova física dessa potência. O Passinho, que surgiu nos bailes do Rio de Janeiro no início dos anos 2000, é descrito pela pesquisadora Jô Gomes como uma “tecnologia ancestral preta”.
Dançar Passinho não é apenas diversão; é uma atividade que exige um nível de complexidade motora e física altíssimo.
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Referências | Mistura Frevo, Capoeira, Samba, Hip Hop e até Balé Clássico |
| Exigência Física | O nível de explosão muscular é comparado ao de um atleta olímpico. |
| Função Social | Proporciona lazer, geração de renda e preservação das tradições orais para jovens de periferia. |
Um dos principais eventos na cena atual é o festival Passinhos do Brasil. Este festival tem como objetivo reunir as diversas vertentes da dança desenvolvidas em diferentes territórios do país, como o Brega Funk (PE), o Malado (MG) e as variações de São Paulo (Magrão, Romano, Maloka e Megão).
O evento é realizado em espaços como o SESC Consolação, em São Paulo, oferece uma programação completa que envolve oficinas, bate-papos e batalhas.
Ocupação em espaços culturais: CRD-SP e Museu das Favelas
Os principais detalhes sobre a presença do passinho em festivais e espaços culturais hoje são:
O Centro de Referência da Dança de São Paulo (CRD-SP) É um local que oferece cursos de formação e que já integrou festivais inteiros dedicados ao gênero, o Museu das Favelas é um espaço onde ocorrem atividades formativas e de difusão, como a oficina “Passinho no Museu”.
Em Grandes Festivais o funk e o passinho hoje ocupam espaços e representam a cultura brasileira no exterior, consolidando-se nos maiores canais de vídeo do mundo.
Embora seja uma data comemorativa e não um festival único, o dia 12 de junho funciona como um marco para a celebração da cultura e resistência do movimento em todo o país.
Essa ocupação de espaços institucionais, como o SESC e centros de referência, faz parte de um movimento de profissionalização e busca por visibilidade para os dançarinos, combatendo o apagamento histórico da cultura preta e periférica.
“Feira da sapatilha”
É impossível falar sobre a ancestralidade rítmica do funk sem destacar o fenómeno que a Ako Dance se tornou no maior palco de dança do mundo: o Festival de Joinville. A escola de São Gonçalo (RJ), sob a liderança de Karla de Oliveira, não apenas levou o funk e o passinho para Santa Catarina, como provou que essas expressões são, técnica e culturalmente, dignas do topo do pódio.
A conquista do 1º lugar na categoria de Danças Populares Brasileiras (Conjunto Sénior) com a coreografia intitulada “CLOVIS”. A coreografia homenageia a tradição dos Clóvis (ou Bate-Bolas), uma manifestação carnavalesca centenária das periferias do Rio de Janeiro. Ao unir a estética dos Bate-Bolas com o Passinho, a Ako Dance mostrou que o corpo do jovem periférico carrega camadas de heranças que se fundem perfeitamente. Eles também ficaram em segundo lugar com a coreografia Clovis no Edital Mosaico Rio 2026 da Firjan SESI na categoria Inéditos – Artes Cênicas (Dança).
Além das competições oficiais, a Ako Dance é uma presença vibrante na Feira da Sapatilha e nos palcos abertos de Joinville. O grupo é frequentemente citado pela crítica por sua versatilidade e autenticidade. Ao levar o Passinho para um festival tradicionalmente dominado pelo ballet clássico e contemporâneo, a Ako Dance quebra a barreira do preconceito académico mencionada pelo pesquisador Meno Del Picchia. Eles mostram que o Passinho é uma tecnologia de elite, exigindo um nível de coordenação e explosão muscular que impressiona jurados do mundo inteiro.
A fundadora Karla, junto de professores como Alex Pluto transformaram a Ako Dance num celeiro de talentos. Um exemplo é o bailarino gonçalense João Pedro Aguiar, que desde cedo representou a academia em Joinville, e está atuando na cena do passinho a um ano e meio superando desafios de através da dança e mostrando que a dança e o funk é uma ferramenta de transformação social potente.
Resistência e Criminalização: Um Filme que se Repete
Infelizmente, o funk ainda enfrenta um desafio que seus “ancestrais” também enfrentaram: o preconceito e a criminalização. Historicamente, no Brasil, as manifestações culturais pretas e periféricas foram tratadas como caso de polícia. O Samba e a Capoeira eram considerados crimes até a década de 1930, o Rap e o Funk enfrentam hoje o mesmo processo de marginalização por parte do estado e de setores da academia que se recusam a estudar o gênero com seriedade.
Descrita por Juliana Bragança em seu livro Preso na gaiola, como um “projeto de Estado“ a criminalização do funk reflete a marginalização histórica das culturas pretas e periféricas no Brasil. A criminalização se manifesta através da prisão de seus agentes e da censura de suas obras. Exemplos citados incluem a prisão do DJ Rennan da Penha, detido por oito meses sob a acusação de ser “olheiro” ao informar a comunidade sobre operações policiais, e a investigação policial sobre o rapper MV Bill devido ao clipe “Soldado do Morro”. O assassinato de MC Daleste no palco, ainda não solucionado após 11 anos, também é mencionado como parte desse contexto de violência.
Mesmo manifestações declaradas Patrimônio Cultural Imaterial, como o Passinho, não protegem os jovens negros de constrangimentos. Há relatos de dançarinos revistados pela polícia cinco vezes no mesmo dia ou que tiveram seus cabelos crespos revirados sob a suspeita de esconderem droga
Apropriação cultural e a luta pelo reconhecimento como patrimônio
A cultura preta e favelada costuma ser discriminada até que pessoas brancas passem a utilizá-la comercialmente, forçando os criadores originais a “implorar” por espaço em algo que eles mesmos desenvolveram. Para enfrentar esse apagamento e a invisibilização, surgiram leis que declaram o funk e o passinho como movimentos culturais e patrimônios, além do projeto de lei para o Dia Nacional do Funk (12 de julho), que busca salvaguardar a cultura e promover seus reais protagonistas.
Essa resistência sistemática ao funk é vista por estudiosos como um reflexo de uma sociedade que ainda luta para aceitar a voz e o protagonismo da juventude negra e pobre.
Nossos passos vêm de longe
Compreender o funk como uma continuidade dos Vissungos e de outros ritmos afro-brasileiros é essencial para dar ao gênero o respeito que ele merece. Ele é o registro de uma realidade que, em muitos aspectos, pouco mudou desde a escravidão.
O funk é a prova de que a cultura negra tem a capacidade incrível de se adaptar, usar as ferramentas digitais de ponta e, ainda assim, manter o coração batendo naquele ritmo sagrado de 130 BPM que os nossos antepassados já conheciam tão bem.
A r-existência do funk é um reflexo das barreiras que a juventude periférica rompe diariamente. Para aprofundar o debate sobre como esses dois mundos se tencionam e se encontram, Leia também a matéria Favela é Centro publicada em nossa revista.
Julia Barbosa é parte da Equipe Editorial da Revista Pluriverso. Na elaboração do conteúdo foi utilizada Inteligência Artificial para auxiliar em processo de pesquisa de fontes, na editoração e para otimização em mecanismos de busca na web (SEO).
Arte da capa: colagem por Julia Barbosa com imagens de de divulgação André Oliveira DB do documentário Passinho foda: o corre por traz da dança e de repositórios públicos na web.

