ISSN 2764-8494

ACESSE

Socioambiental
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Há futuro sem os povos originários?

Diante da crise ecológica global, uma pergunta incômoda ecoa com urgência: o que aconteceria se as comunidades originárias desaparecessem? A resposta é drástica e imediata: o planeta morre. Longe de ser um exercício de retórica apocalíptica, a perda dos povos originários significa a destruição direta dos mecanismos que hoje sustentam o equilíbrio climático, a pureza do ar e a estabilidade da biosfera. Embora representem uma parcela pequena da humanidade – algo entre 5% e 6% da população global -, os povos indígenas gerenciam territórios que abrigam cerca de 80% da biodiversidade remanescente da Terra.

Esses povos indígenas, junto a um grupo numericamente menor ainda de ribeirinhos e ativistas, são a nossa última linha de defesa da floresta. O extermínio dessas comunidades e de outros defensores da terra, a invasão e usurpação dos seus territórios para o desmatamento e a implantação de monoculturas, a mineração predatória ou a sua transformação em terras de pastagem ou em empreendimentos turíticos milionários, não são apenas crimes humanitários; representam o desmantelamento das barreiras físicas que nos separam do colapso planetário. E aqui é urgente lembrarmos, como nos alertou o cientista e ativista Noam Chomsky, em entrevista na primeira edição da revista Pluriverso, “gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática“.

Dados científicos confirmam o impacto dos povos originários contra o desmatamento

A ciência ocidental contemporânea começa a validar numericamente o que a sabedoria ancestral professa há milênios. Durante a conferência realizada na Zona Azul da COP30, segundo registros da cobertura jornalística de Antônio Marinho Piratapuya, pesquisadores e lideranças apresentaram dados contundentes sobre essa correlação vital. Wayne Walker, vice-presidente de Ciências do Woodwell Climate Research Center, demonstrou por meio de análises espaciais que nada menos do que 89% da perda de cobertura florestal na Amazônia nos últimos 25 anos ocorreu fora de territórios indígenas, enquanto meros 11% aconteceram dentro de suas fronteiras.

Esses territórios funcionam como verdadeiras fortalezas climáticas, estocando cerca de 31 bilhões de toneladas de carbono acima do solo – o equivalente a três anos de todas as emissões globais de combustíveis fósseis. Em uma escala global, estimativas analisadas pela pesquisadora Alokya Kanungo, da organização Earth.Org, apontam que as florestas sob manejo indígena e tribal resguardam em torno de 34 bilhões de toneladas métricas de carbono, mantendo índices de desmatamento significativamente inferiores à média das florestas desprotegidas.

 Impacto Dos Povos Originários Contra O Desmatamento E Queimadas
Arte de Julia Barbosa sobre foto de pessoa kaiapó de Luján Cambariere, disponível em cosmos.so

Apesar de sua eficácia incontestável na proteção do clima, os povos originários enfrentam um cenário de profunda injustiça e vulnerabilidade sistêmica. O relatório global “A situação mundial dos povos indígenas“, elaborado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DESA) da ONU e debatido no Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, revela um paradoxo alarmante: as comunidades responsáveis por salvaguardar a maior parte da vida natural do planeta recebem menos de 1% do financiamento internacional voltado para a ação climática.

Essa assimetria financeira é acompanhada pela exclusão política e pela imposição de projetos econômicos sem o consentimento livre, prévio e informado dessas populações, forçando-as a enfrentar sozinhas as pressões predatórias do garimpo, da extração madeireira e da expansão agropecuária. No Brasil, por exemplo, o avanço da mineração ilegal em terras indígenas registrou um crescimento vertiginoso de 625% entre os anos de 2011 e 2021, gerando rastros severos de destruição ambiental e contaminação hídrica.

Consequências biológicas e a perda de saberes ancestrais

Povos Originários: Foto De Rosa Gauditano De Uma Pessoa Indígena Com Um Animal Silvestre No Ombro
Foto de Rosa Gauditano, em cosmos.so

As consequências desse avanço predatório extrapolam a geografia física e atingem a própria estrutura existencial e biológica do planeta. Como aponta Alokya Kanungo ao analisar os impactos sobre etnias como os Yanomami, Kayapó e Ashaninka, a destruição das florestas rompe o controle dos microclimas locais e elimina os sistemas tradicionais de saúde baseados em plantas medicinais. Citando investigações epidemiológicas de cientistas como Wilcox e Ellis, a pesquisadora adverte que a degradação desses ecossistemas atua diretamente na proliferação de enfermidades infecciosas e no aumento drástico da mortalidade infantil por desnutrição e malária.

Esta situação, vem empurrando comunidades outrora autossuficientes para situações crônicas de dependência e vulnerabilidade alimentar. Não se trata apenas da perda de árvores; trata-se do colapso de redes complexas de conhecimento e tecnologias agrícolas e de manejo que não estão registradas em livros ou na internet, mas codificadas na oralidade e na prática cotidiana.

Essa erosão multidimensional foi sintetizada de forma tocante por Fany Kuiru, coordenadora-geral da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica). Em seu pronunciamento, ela lembrou que, para além da perda biológica, a queda de cada árvore representa o desabamento da memória coletiva, das rotas ancestrais e dos espaços sagrados. O enfraquecimento dessa governança territorial empurra a biosfera para um limiar perigoso.

Projeções climáticas indicam que a omissão diante da integridade indígena sujeitará os territórios amazônicos a aumentos térmicos severos, elevando a proporção de áreas sob calor extremo (acima de 39 °C) de 11% para 51%, além de expandir o risco de incêndios florestais catastróficos para 60% das terras originárias. Como reforça Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, o reconhecimento dos territórios e a demarcação em larga escala não constituem concessões políticas secundárias, mas sim uma necessidade de sobrevivência para o ecossistema e o clima global.

Insegurança jurídica e a violência contra os povos originários no Brasil

Violência Contra Os Povos Originários No Brasil. Fotografia Do Povo Akwē Xerente No Tocantins, Brasil Por Edgar Kanaykõ Xakriabá
fotografia do povo Akwē Xerente no Tocantins, Brasil por Edgar Kanaykõ Xakriabá disponível em cosmos.so

No cenário sul-americano, e especificamente no Brasil, essa crise ganha contornos de violência explícita legitimada por lacunas e retrocessos jurídicos. Conforme relata a jornalista Carolina Bataier para o Brasil de Fato, entidades representativas – incluindo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Comissão Arns e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) – se uniram em um manifesto público para denunciar a escalada de ataques armados e campanhas de desinformação contra os povos originários, a exemplo dos ataques sofridos pelos Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul.

As organizações coincidem em apontar que a insegurança jurídica gerada por medidas legislativas como a Lei 14.701, associada à tese do marco temporal, serve de combustível para investidas violentas de setores ruralistas. O alerta emitido por essas instituições ecoa como um ultimato para a sociedade contemporânea: o extermínio dos povos originários significa o sepultamento do nosso próprio futuro coletivo.

Os caminhos na crise

Garantir a autonomia e a integridade das comunidades indígenas não pode mais ser interpretado como um dever puramente moral ou uma causa humanitária isolada. Trata-se, minimamente, de uma obrigação climática incontornável para evitar o colapso sistêmico da Terra. Enquanto as estruturas de governança global continuarem a marginalizar as vozes e os modos de vida que sustentam o equilíbrio da biosfera há milênios, qualquer tentativa de conter o aquecimento global falhará por negligenciar as verdadeiras raízes da conservação. Proteger o pluriverso de saberes e existências originárias é a única via para que a vida permaneça viável.

Os dados são claros, duros e difíceis de encarar, pela sua gravidade, mas a assimetria de poder entre os que defendem a terra e aquele que tomam as decisões que impactam massivamente pessoas e territórios, é abissal. Todavia, não é mais possível, hoje menos do que nunca antes, deixar-se imobilizar pelo espanto e pelo tamanho do desafio. Sabemos que há, para a grande maioria de nós, ainda o desafio de superarmos a barreira da compreensão, em um combate não menos desigual, contra a desinformação, o negacionismo e as chamadas fake news, como também contra um senso comum atravessado pela colonialidade do poder e do saber, e pelo pragmatismo liberal e desenvolvimentista.

Junto com as lutas por autonomia, integridade territorial e respeito aos saberes e direitos das comunidades originárias, é fundamental caminhar no sentido de uma mudança mais complexa, profunda e, ao mesmo tempo, cotidiana. Isto é, no entendimento de que o debate não é apenas programático, mas um que se dá em meio a uma profunda crise civilizatória.

É, assim, tempo de reaprender a viver e a conviver, de repensar nosso modo de estar em relação com o mundo e com o outro. Como nos convidava a arte educadora Camila Leite, a partir da sua leitura do Ailton Krenak, é preciso pensar o que nos nutre, o que nos toca e nos mobiliza, para adiarmos, assim, hoje, a própria ideia do fim do mundo.


Julia Barbosa é parte da Equipe Editorial da Revista Pluriverso. 

Claudio Barría  é músico, doutor em Educação pela UFF, pesquisador do NIRA/FFP/UERJ e membro fundador do Coletivo Pluriverso e do Conselho Editorial da Revista Pluriverso.

(*) para a criação deste conteúdo foram utilizados recurso de IA generativa nos processos de pesquisa e sistematização de dados e fontes.

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