ISSN 2764-8494

ACESSE

Comunicação
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A soberania e o guarda-chuva da comunicação popular

Se você liga a TV ou abre o feed hoje, a narrativa é uma só: “o ditador caiu. Os EUA intervieram para ‘salvar’ a Venezuela em seu combate ao narcotráfico”. Tem nuances, opiniões mais ou menos diversas, mas, igual a nota daquele samba, a narrativa é uma só. 

Em um contexto tão complexo como esse, cabe se perguntar, qual o nosso papel como comunicadores populares? Replicar manchetes prontas? Seguir ao pé da letra o mito da “imparcialidade” dando ouvidos a vozes que repetem narrativas duvidosas que, de tanto serem repetidas já se tornaram verdades?

Antes de refletir sobre o assunto, queremos deixar uma pergunta em aberto para para você: Se um diz que está chovendo e outro diz que faz sol, qual o papel do comunicador social engajado com a verdade?

Soberania, não é sobre Maduro…

Agora vamos ao assunto, afinal, o que é essa tal de soberania que todo mundo está falando e por que é importante para nós?

Soberania é o direito sagrado de um povo de decidir seu próprio destino, sem que ninguém de fora meta a colher. Não é sobre, de fora, acharmos isto ou aquilo do que acontece em outra nação, mas sim sobre o direito de um povo de decidir seu destino, de resolver seus problemas e de optar por um rumo ou outro qualquer. 

Então, não é sobre um político ou sobre um governo em particular merecer ou não governar seu povo. A gente pode se solidarizar, se mobilizar, apoiar, e muito mais, mas não pode intervir, muito menos com a força bruta.

O que acabou de acontecer na Venezuela é grave, porque quando uma potência estrangeira invade um território e sequestra um presidente, não está atacando apenas um político; mas sim afirmando que a “cadeira” de presidente daquele país não vale nada, que a constituição e as leis daquele povo são inferiores à vontade desse invasor, no caso, Washington.

Mas é pior do que isso, essa potência está dando esse recado para todos os demais países do mundo, e em especial aos da região e aos que não seguem sua linha de forma submissa.

Mas por que a soberania da Venezuela incomodaria tanto? 

Bom, para nos situarmos um pouco, acontece que vivemos em um período de grave crise energética, e os EUA não estão livres dessa necessidade. Muito pelo contrário. Já a República Bolivariana de Venezuela possui as maiores reservas de petróleo e de ouro do mundo. Trump foi direto e claro: quer governar a Venezuela e “gerir o petróleo” para “lucrar rápido e muito”.

A soberania serve justamente para garantir que a riqueza de um solo pertença ao seu povo. Ou seja, permite a esse país negociar suas riquezas com quem quiser e do modo que quiser. Sem soberania, não existe escola pública, saúde ou infraestrutura nacional, porque o lucro das riquezas naturais é drenado para fora.

Ah, sim, você poderá estar pensando (de tanto ter lido e ouvido sobre isso em toda a grande mídia e suas redes de repetição), “mas o Maduro é um ditador!” “Os EUA não estão libertando a Venezuela? Eles não estão, acaso, combatendo o narcotráfico?”

O que Trump realmente quer na Venezuela

Na verdade, neste conteúdo sequer entramos nessa questão. Não por evitar o tema, mas porque queremos frisar que a questão da soberania é anterior a essa questão, como acabamos de pontuar anteriormente.

Mas, para aqueles que ainda tinham alguma dúvida sobre os verdadeiros interesses do governo norte-americano sobre a terra do Bolívar, na sua conferência de imprensa, imediatamente depois do ataque do dia 03 de janeiro, Trump falou em possíveis novos ataques, caso o governo não seguir seus desígnios, falou em atualizar a infraestrutura petroleira de PDVSA para começar logo a ganhar dinheiro (disse “lucrar”), e falou que iriam governar a Venezuela para isso, mas … não, sequer uma palavra sobre “combate ao narcotráfico”. 

E para os que ainda tinham alguma esperança de que por trás desta violência toda, dos bombardeios, do assassinato de mais de duzentas pessoas, contando ataques às lanchas nos últimos meses, houvesse qualquer boa intenção de defesa da liberdade e da democracia, o discurso de Trump explicando seus motivos foi taxativo: Ele usou as palavras liberdade e democracia, um impressionante total de zero,  “0”, vezes. Já a palavra “petróleo”, vinte e sete,  27, vezes. 

O que mais podemos dizer. 

Verdade seja dita, os colegas da grande mídia realizam um esforço enorme para tentar manter uma imagem de legitimidade da ação dos EUA, porque de fato o próprio Trump parece não estar mais interessado em dar qualquer verniz de legalidade ou legitimidade ao ataque a Venezuela e ao sequestro de Maduro.

O “Tribunal do Mundo” é uma farsa 

Os EUA se colocaram como polícia, juiz, júri e carrasco, mas não há nenhuma legitimidade além do seu poder militar para assumir esses papeis. Ao ignorar a ONU e o Direito Internacional, eles criam um precedente perigoso: o de que a força bruta vale mais que a diplomacia. 

Se aceitarmos que um país possa ser invadido porque não gostamos do seu governante, estamos aceitando um mundo de caos. E não é que a gente seja ingênuo de acreditar que a ONU por si só seja capaz de resolver muita coisa nas relações de poder da geopolítica global. Não, pelo contrário. A Organização das Nações Unidas tem dado muitos sinais de fraqueza e impotência. Mas é justamente por isso que é mais urgente do que nunca fortalecer seus mecanismos, pois é a única instância de mediação possível que existe no mundo, para impedir abusos de poder como o que acabamos de presenciar no nosso vizinho. De fato, o presidente dos EUA, na mesma declaração, ameaçou a Colômbia, Cuba e o México, com possíveis ações similares.

Não é uma “teoria da conspiração”

E é por isso que é importante que os países reajam de forma clara e unificada, e que os povos se organizem e se manifestem, porque, se “a moda pega”, qualquer país com recursos estratégicos pode ser o próximo alvo de uma “operação de libertação” que, na verdade, é um banho de saque para saquear um país. 

Nesse sentido, e sem nenhum exagero ou teoria conspiratória, vale lembrar que, além das nossas reservas de petróleo e da riqueza da nossa Amazônia, o Brasil é o líder mundial em reservas e produção de nióbio, com grandes depósitos em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Rondônia, e o Nióbio é essencial para a produção de aços especiais e ligas de alta tecnologia usadas na indústria automotiva, aeroespacial, de energia e médica.

O papel do comunicador: Defender o Território Simbólico 

A soberania também se defende na informação. A desinformação é a “artilharia pesada” que prepara o terreno para a invasão física.

Soberania Informativa: É a nossa capacidade de contar a nossa própria história.

Soberania Digital: É não deixar que algoritmos configurados para atender interesses de uma potência estrangeira, decidam o que é verdade ou mentira sobre a nossa região.

Defender a soberania da Venezuela hoje é, acima de tudo, defender o Direito de Existir do Brasil e da nossa América, não só amanhã, mas hoje mesmo. 

Não existe democracia real sem soberania nacional. 

Se um povo não é dono do seu território, ele é apenas inquilino da vontade alheia.

Ah, sim, para não deixar sem resposta a questão que levantamos antes de refletirmos sobre a soberania… 

Se um diz que está chovendo e outro diz que faz sol, qual o papel do comunicador social engajado com a verdade? dar espaço “aos dois lados”?

Bom, no nosso entendimento, o papel de um comunicador, seja jornalista profissional ou um comunicador popular orgânico às lutas do seu povo, deve ser, antes de nada, levantar da sua cadeira e abrir a janela para conferir. Só então, ele poderá agir em consequência com coerência e coragem.   

Claudio Barría Mancilla @claubarria é Educador, músico e pesquisador chileno radicado no Brasil desde 1995. Doutor em Educação pela UFF, é sócio-fundador da Pluriverso Coletivo, onde coordena o Núcleo de Pesquisa experimental em Arte e Ciências Humanas (NuPACh), idealiza a plataforma de Educonexão Pluriverso e é Editor chefe da Revista Pluriverso.

Daniela Araujo @daniaraujo é comunicadora popular, documentarista, formada em jornalismo e doutoranda na ECO/UFRJ, cria da OSC BemTV Educação e Comunicação, onde foi coordenadora. Atuou como sub-secretária de culturas na SeCult/Niterói.

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