Por que é importante o que diz a Palantir?
Talvez você já tenha ouvido falar da Palantir, uma empresa americana fundada em 2003 por Peter Thiel e Alex Karp, que trabalha com análise de big data e inteligência artificial (IA) e atua como “sistema operacional” para a tomada de decisões, para governos e grandes corporações.
A Palantir é conhecida por ser “poderosa e pouco popular”, com contratos profundos e bilionários com o governo dos Estados Unidos que geram debates sobre os limtes éticos do uso da inteligência artificial. O CEO, Alex Karp, é um ativista do uso de IA na guerra e no controle coercitivo da sociedade, e reflete uma visão extrema de uma sociedade segregada que, entretanto, apresenta a si como uma utopia que eles mesmos denominaram a República tecnológica.
A sequência de manifestos e reações
Bom, é nesse contexto que, em 18 de abril, agora, a Palantir publicou um manifesto sob o título The Technological Republic, in brief, “A República Tecnológica, em resumo”. E como não seria para menos, tem gerado as mais diversas reações. No dia seguinte, dia 19, o economista e ex-ministro grego Yanis Varoufakis publicou na sua conta do Twitter (atual X, desde que adquirida pelo trilionário Elon Musk) a sua interpretação dos 22 pontos publicados pela empresa de análise de dados liderada por Alex Karp.
Em 2023, Varoufakis lançou um livro tão instigante quanto perturbador, intitulado “Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo”. Nele, o economista decreta a morte do capitalismo clássico, substituído por um novo sistema econômico que ele chama de “tecnofeudalismo”. Nessa nova ordem, as Big Techs (como Amazon, Google, Meta, Apple) transformaram-se em “senhores feudais” digitais que controlam plataformas (“nuvem”) em vez de mercados, explorando usuários como “servos digitais” que produzem valor gratuitamente.
Um dia depois, no dia 20 de abril, a Revista espanhola CTXT publicou uma tradução para o espanhol da resposta de Varoufakis à Palantir. Estes posicionamentos adquirem uma enorme importãncia no contexto da luta por soberania digital, assim como para o enetndimento das aceleradas mudanças na geopolítica global e a reestruturação da economia em torno da plataformisação. Movidos por essas questões, e entendendo a importância de ampliarmos a nossa reflexão, estamos publicando uma tradução para o português que teve por base a versão em espanhol da CTXT e utilizou as originais, em inglês, para a revisão final.
Os textos na íntegra estão a seguir.
A ideologia da Palantir na análise Varoufakis

A Palantir teve a gentileza de resumir sua ideologia abominável em 22 pontos. E tomei a liberdade de comentar cada um deles. Aqui está minha interpretação dos 22 pontos, mantendo a numeração original.
[Nota: Os pontos originais de Palantir são apresentados em itálico; o comentário de Varoufakis segue cada ponto em parágrafo a seguir, mantendo sempre a mesma numeração.]
1. O Vale do Silício tem uma dívida moral para com o país que tornou possível seu surgimento. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a obrigação de participar da defesa da nação.
1. O Vale do Silício tem uma dívida imensurável com a classe dominante que resgatou os banqueiros criminosos que arruinaram a vida da maioria dos estadunidenses. A elite da engenharia do Vale do Silício defenderá essa classe dominante até a morte (literalmente!), em nome da maioria dos norte-americanos que eles tratam com desprezo – ou seja, como gado que perdeu seu valor de mercado.
2. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. Será o iPhone a nossa maior conquista criativa, senão a maior da nossa civilização? O aparelho mudou as nossas vidas, mas agora também pode estar a limitar e a restringir a nossa perceção do que é possível.
2. A Palantir está de olho na Apple Store, ansiosa pela perspectiva de criar seu próprio feudo tecnofeudal [sic]. Chegou a hora de substituir o iPhone por outro dispositivo que destrua o que resta da privacidade das pessoas.
3. E-mail gratuito não é suficiente. O declínio de uma cultura ou civilização, e de fato de sua classe dominante, só será perdoado se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança à população.
3. A Palantir não vai dar nada de graça. Só se preocupa com o próprio crescimento, que busca, semeando medo, para vender uma falsa sensação de segurança.
4. Os limites do soft power, da mera retórica grandiloquente, foram revelados. A capacidade de sociedades livres e democráticas prevalecerem exige mais do que um apelo moral. Exige poder coercitivo (“hard power”), e o poder coercitivo neste século será baseado em software.
4. Glória à força bruta! Ética é para os ingênuos. O Ocidente precisa mais do software assassino da Palantir.
5. A questão não é se armas com inteligência artificial serão fabricadas, mas quem as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se envolver em debates teatrais sobre os méritos do desenvolvimento de tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles vão seguir adiante.
5. Robôs assassinos com inteligência artificial estão a caminho. O objetivo é obter lucros enormes construindo primeiro esses robôs assassinos e fazendo perguntas depois. Para atingir esse objetivo, a Palantir fará tudo o que for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que limite robôs assassinos com inteligência artificial.
6. O serviço militar deveria ser um dever universal. Como sociedade, devemos considerar seriamente a possibilidade de abandonar um exército composto exclusivamente por voluntários e só entrar na próxima guerra se todos partilharmos o risco e o custo.
6. Qualquer pobre diabo (que não tenha os contatos necessários para evitar ser jogado nas trincheiras com drones assassinos alvejando ele do céu) terá de ser convocado para o exército. Esqueçam o pagamento de salários aos soldados. Todos os pagamentos devem ir para a Palantir, onde nosso próprio povo prestará seu “serviço militar”, deixando para trás aqueles que não são acionistas.
7. Se um fuzileiro naval dos EUA pedir um fuzil melhor, devemos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. Como país, deveríamos ser capazes de debater a adequação de ações militares no exterior sem vacilar em nosso compromisso para com aqueles a quem pedimos que se colocassem em risco.
7. A Palantir trabalha incansavelmente para equipar os fuzileiros navais dos EUA com robôs assassinos que os despojam de qualquer resquício de discernimento ético no campo de batalha. A sociedade norte-americana tem que se tornar completamente incapaz de qualquer debate que restrinja a capacidade da Palantir de fazer com que as forças armadas dos EUA eliminem qualquer possibilidade restante de rejeição da seleção de alvos pelo seu software.
8. Os funcionários públicos não precisam ser nossos padres. Qualquer empresa que pagasse a seus funcionários da mesma forma que o governo federal paga aos servidores públicos teria dificuldades para sobreviver.
8. A Palantir lamenta o fato de o setor público ainda não estar completamente desprovido de consciência. Os funcionários públicos devem ser demitidos em massa com exceção de alguns aprovados pela Palantir, que receberão salários exorbitantes, pagos pelos contribuintes.
9. Devemos demonstrar muito mais indulgência para com aqueles que se submeteram à vida pública.A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de toda tolerância em relação às complexidades e contradições da psique humana — pode nos deixar com um grupo de personagens no comando dos quais acabaremos nos arrependendo.
9. A Palantir acredita que Donald Trump deveria ser beatificado por sua dedicação ao serviço público. Não perdoar pessoas como Trump coloca nossas almas em perigo, sem mencionar o aumento da probabilidade de as autoridades restringirem o projeto maligno da Palantir.
10. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho certo.Aqueles que buscam na arena política o alimento para sua alma e um sentido do Eu, que dependem demais de que a sua vida interior encontre alguma expressão em pessoas que talvez nunca venham a conhecer, ficarão desapontados.
10. A política deveria ser como a inteligência artificial, desprovida de qualquer coisa que pudesse ser confundida com empatia humana. Aqueles que recorrem à arena política para alimentar sua alma e senso de identidade devem ser enviados imediatamente para o Gulag!
11. Nossa sociedade se tornou impaciente demais por acelerar, e muitas vezes se alegra com o desaparecimento de seus inimigos.A derrota de um adversário é um momento para fazer uma pausa, não para se alegrar.
11. Há pessoas que estão ansiosas demais para acelerar o fim da Palantir. Eles deveriam reconsiderar, ou então…!
12. A era atômica está chegando ao seu fim.Uma era de dissuasão, a era atômica, está acabando, e uma nova era de dissuasão baseada em IA está prestes a começar.
12. A Palantir não fabrica armas nucleares, mas desenvolve com satisfação outros tipos de armas de destruição em massa. Anunciamos com orgulho que agora estamos prontos para adicionar a ameaça à existência da humanidade, impulsionada por inteligência artificial, ao Armagedom nuclear.
13. Nenhum outro país na história do mundo promoveu valores progressistas mais do que este. Os Estados Unidos estão longe da perfeição. Mas é fácil esquecer quantas oportunidades a mais existem neste país para aqueles que não pertencem à elite hereditária, em comparação com qualquer outra nação do planeta.
13. Nenhum outro país na história do mundo cometeu tantos crimes de guerra em nome do progresso e da liberdade. Os Estados Unidos oferecem liberdade ilimitada a pessoas como os fundadores da Palantir para lucrarem generosamente infligindo tanto mal à humanidade.
14. O poder americano tornou possível uma paz extraordinariamente longa. Muitos se esqueceram, ou talvez considerem como certo, que por quase um século uma certa versão de paz prevaleceu no mundo, livre de conflitos militares entre grandes potências. Pelo menos três gerações — bilhões de pessoas, seus filhos e agora seus netos — nunca conheceram uma guerra mundial.
14. O poder estadunidense tem se deleitado em provocar uma guerra após a outra, um golpe de Estado após o outro, um desastre financeiro evitável após o outro. Muitos se esqueceram, ou talvez tenham subestimado, a capacidade dos Estados Unidos de travar guerras intermináveis em nome da paz e da democracia.
15. A neutralização da Alemanha e do Japão após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da Alemanha foi uma reação exagerada pela qual a Europa agora paga um preço alto. Um compromisso parecido e altamente teatral, com o pacifismo japonês, se mantido, também irá ameaçar com alterar o equilíbrio de poder na Ásia
15. O fascismo alemão e japonês precisa voltar a ser grande. A desnazificação da Alemanha foi uma reação exagerada pela qual a Europa agora paga um preço alto. Um compromisso semelhante e extremamente equivocado com o pacifismo japonês também deve terminar imediatamente!
16. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura quase ridiculariza o interesse de Musk em grandes narrativas, como se bilionários devessem se concentrar apenas em enriquecer a si mesmos… Qualquer curiosidade ou interesse genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez disfarçado sob um desprezo pouco velado.
16. Devemos aplaudir aqueles que tentam monopolizar tudo por meio de generosos contratos governamentais. Bilionários não deveriam se contentar apenas com seus bilhões. Para ficarem ainda mais obscenamente ricos, eles precisam de grandes narrativas que convençam os pobres a usar sua liberdade para manter a eles, os bilionários, no poder. E, aliás, a Palantir adora Elon Musk, especialmente sua grande narrativa inspirada no apartheid.
17. O Vale do Silício deve desempenhar um papel na luta contra o crime violento.Muitos políticos nos Estados Unidos têm minimizado a criminalidade violenta, abandonando qualquer esforço sério para lidar com o problema ou correndo riscos com seus eleitores ou doadores ao propor soluções e experimentos no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.
17. O Vale do Silício deveria ter a liberdade de fazer nas cidades norte-americanas o que fez em Gaza. Muitos políticos nos Estados Unidos têm simplesmente ignorado a concessão à Palantir do direito de aniquilar todas as liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso precisa parar.
18. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta muitos talentos do serviço público.A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer mais do que enriquecer a si mesmos — tornou-se tão implacável que a república ficou com um número significativo de pessoas ineficazes e vazias, cuja ambição poderia ser perdoada se houvesse alguma estrutura de crença genuína escondida dentro delas.
18. O esquema de Epstein deve ser esquecido para que pessoas carismáticas como Trump e os Clinton não sejam dissuadidas de entrar para o governo. A esfera pública deve estar livre de escrutínio, a menos que subversivos como Sanders ou Mamdani entrem nela.
19. A cautela que cultivamos sem perceber na vida pública é corrosiva. Quem não diz nada de ruim, muitas vezes quase não diz nada.
19. Adoramos figuras públicas banais, desde que elas garantam todos os contratos lucrativos para a Palantir. Também adoramos as figuras públicas excêntricas que garantem à Palantir todos os contratos lucrativos.
20. Devemos resistir à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos.A intolerância da elite em relação às crenças religiosas é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos de seus membros afirmam.
20. Precisamos de mais ópio para as massas, já que elas não estão suficientemente intoxicadas para que possamos prosseguir com sua completa subjugação sem impedimentos. Questionar a superstição organizada é perigoso e precisa acabar.
21. Algumas culturas fizeram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. Críticas e juízos de valor são proibidos. No entanto, esse novo dogma ignora o fato de que certas culturas, e até mesmo subculturas, produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres e, pior, retrógradas e prejudiciais.
21. Chegou a hora de restaurar a hierarquia racial de Hitler, com os fundadores da Palantir e Elon Musk no seu ápice ariano. Devemos descartar a ideia de que é errado julgar alguém pela cor da sua pele, pela sua origem étnica ou pela sua religião.
22. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. Nos Estados Unidos, e de forma mais ampla no Ocidente, temos resistido à definição de culturas nacionais em nome da inclusão durante o último meio século. Mas inclusão em quê?
22. Negros, muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres, são considerados sub-humanos e inferiores. Nos Estados Unidos, e de forma mais ampla no Ocidente, os homens resistiram a colocar esses sub-humanos em seu devido lugar durante o último meio século, em nome da inclusão. Isso foi um erro. Tais subumanos jamais deveriam ser admitidos, exceto como empregados domésticos ou profissionais do sexo — pelo menos até que possamos aprimorar nossos robôs, caso em que não precisaremos deles
Yanis Varoufakis é um economista, acadêmico e político greco-australiano, reconhecido como um crítico contundente da austeridade europeia e do capitalismo contemporâneo. Foi Ministro das Finanças da Grécia (2015) durante a crise da dívida. É autor de renome, de obras como “O Minotauro Global” e o recente “Tecnofeudalismo”.
Texto introdutório e tradução do espanhol e dos originais em inglês, por
Claudio Barría Mancilla é Educador, músico e pesquisador chileno radicado no Brasil desde 1995. Doutor em Educação pela UFF, é sócio-fundador da Pluriverso Coletivo, onde coordena o Núcleo de Pesquisa experimental em Arte e Ciências Humanas (NuPACh), idealiza a plataforma de Educonexão Pluriverso Diálogo de saberes e é Editor chefe da Revista Pluriverso.

