Respeitável público!!
Tendo completado 50 anos de idade recentemente e com mais de 30 deles de experiência artística, Boris Ribas se enquadra na categoria de multi-artista e combina acrobacias, voos, música e muitas risadas numa eclética carreira internacional. Essa entrevista é ao mesmo tempo uma prosa entre amigos que desvela traços da formação artístico-circense e da trajetória profissional — e, quem sabe, ilumine o caminho para muitos outros artistas que pretendam fazer carreira nacional ou internacionalmente.
Senhoras e senhores, com vocês, Boris!
Poderia, por favor, comentar como foi a sua aproximação ao circo e como aconteceu a sua formação nessa particular linguagem artística?
A minha primeira lembrança com o circo remete à minha infância, com uns 9 anos se não me equivoco. Eu vivia em Paraty (RJ) quando chegou um circo na cidade e botaram um cartaz anunciando que queriam gente para trabalhar, provavelmente para montar o circo. Eu vi o cartaz e me apresentei com um amigo da mesma idade, achando que íamos virar artistas. Os caras riram de nós, claro, e mandaram a gente sair dali para não ganhar uns “cascudos” [risos].
O desejo de virar artista de circo
Muitos anos mais tarde, uma amiga, sabendo que eu iria mudar para o Rio de Janeiro, me falou da Escola Nacional de Circo, pois achava que eu ia gostar. Fui ao Rio estudar música, nessa época era o que eu queria da vida. Calhou de eu tocar em uma orquestra de violões com a Carla Dias que estava na escola de circo e, após conversas, isso me animou. Assim, eu fui até a escola, passei na prova, gostei e fiquei.

A Escolha entre a Música e o Picadeiro: Formação na Escola Nacional de Circo
No início era fácil combinar as duas coisas, mas chegou um momento em que tive que escolher, pois tanto o circo como a música pediam muita dedicação. Eu escolhi o circo! Na época lembro que pensei que tinha lugar para a música no circo, mas tinha pouco lugar para o circo na música. Eu tinha 21 anos e pensei que a música podia esperar um pouco, mas a acrobacia, não. Entrei de cabeça no mundo do circo, me formei na Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro, depois de me formar ainda fiz dois anos de especialização, de modo que passei uns sete anos nesse lugar. Nos últimos anos de escola de circo, eu trabalhei com a Intrépida Trupe e, apesar de ser uma relação profissional, acho que foi muito importante também para a minha formação pessoal e artística.
Onde você está vivendo atualmente? Conte-nos um pouco dessa sua jornada Brasil-mundo.
Atualmente eu moro em Santa Maria de Palautordera, uma cidade pequena perto de Barcelona, ao lado de Sant Esteve de Palautordera onde está sediado um importante circo local, o Circ Cric. E tudo isso começou em 2002, aos 28 anos. Eu tinha acabado a ENCLO, tinha saído da Intrépida para trabalhar em um circo itinerante de lona, decisão que não deu muito certo. Por isso, decidi sair do Rio de Janeiro em busca de novos horizontes.
Passei um mês mais ou menos no Chile dando aulas de trapézio e acrobacia, juntei um dinheirinho e viajei para a França. Nessa época eu dava aulas de trapézio na Fundição Progresso (RJ), mandei informação para todos os contatos que pude na Europa, me oferecendo como artista e me inscrevi num curso de trapézio com o Jean Palaci. Pensei que, se não arrumasse trabalho por lá, voltaria com o curso do Palaci que pelo menos me valorizaria como trapezista ou professor de trapézio. Saí do curso com uma proposta com a companhia de trapézio “Tou Fou
Too Fly”, com quem participei de um projeto muito interessante em Marselle (França), dirigido por Pierrot Bidon, com um número de trapézio volante a 25 metros de altura, em cima de uma das ruas mais movimentadas da cidade.
A chegada ao Circ Cric e a parceria com Tortell Poltrona
Depois de um dos emails que eu tinha mandado, saiu uma proposta de ir para o Circ Cric do palhaço Tortell Poltrona, que estava perto de Barcelona, onde tinha um casal de amigos trabalhando — a Carla Dias, a mesma que 10 anos antes me animou a entrar pra escola de circo, e o seu marido na época, Ignasi Gil.
O Jaume Mateu, ou o palhaço “Tortell Poltrona” como é mais conhecido, estava querendo sair de turnê com o Circ Cric e estava formando companhia. Eu estava chegando na Europa e procurando trabalho em um circo e a gente conhecia muita gente em comum. No dia em que fui ao Cric mostrar meu trabalho, ele falou: “Boris, não sei se você é bom, mas com certeza você tem muitos amigos”. Ele já tinha ouvido falar de mim por várias pessoas diferentes. Cheguei no Circ Cric como trapezista, mas o que eu tinha condições de fazer era um número de paradas de mão com cadeiras, conselho muito útil dos professores da escola do Rio, que sempre diziam: “Boris, tenha sempre um número sozinho e fácil de levar”. Esse conselho salvou a minha viagem!
Acabei ficando no Circ Cric (Amez, Vallejo, Masvidal, 2018). Naquele momento era exatamente o que eu estava procurando, uma turnê de circo, cada semana em uma cidade. Foi fantástico. Em pouco tempo estava com minha trupe de trapézio do Brasil aqui e fizemos várias temporadas. Casei com a Lourdes Carracedo Nieves que é até hoje administrativa no Cric e tivemos duas filhas lindas, Marina e Gina Ribas Carracedo.

A criação do Circo Los e o cenário circense na Catalunha
Em 2008-2009, estivemos um ano e meio em Paraty no Brasil. Voltei à Espanha e continuei trabalhando com o Circ Cric. Paralelamente, criei, com o Igor Buzato, que era o portor de trapézio, a companhia Circo Los, com a qual fizemos dois espetáculos de rua: Cabaré Parodia, com a Rosa Pelaez, e Xarivari Blues com Antonio Firmino e o Roberto Carlos. A atividade circense na Catalunha tem sido muito forte, e isso ajuda muito a todos os artistas, como melhor debatem (Jané, Minguet, 2006).
A verdade é que trabalhei com muitos brasileiros que passaram pela ENC. De fato o espetáculo foi uma homenagem aos nossos antigos professores. Confesso que sou bastante curioso e por isso acabei me envolvendo com outras disciplinas e áreas. Há anos montei, em parceria com a bailarina Olga Lladó, uma companhia chamada Bool, que mistura dança contemporânea e circo. Temos dois espetáculos de sala, Avua e Spiralis, que me levaram a conhecer um pouco outro circuito de shows.
Dança contemporânea, música e o ofício do palhaço
Voltei a estudar música, tocar na noite, coisa que me ajudou muito no meu projeto mais recente que é o palhaço. Por certo, me encontrei no oficio do palhaço, pois é uma linguagem que aceita tudo que eu gosto, música, circo, acrobacia, com uma distinta exigência corporal e artística. Para mim, quando uso as acrobacias, a música, entre outras coisas. Quando atuo como palhaço, elas são ferramentas para o personagem e para a cena, com uma exigência técnica-corporal diferente de quando faço um número de paradas de mão. Ou seja, é diferente de quando o palhaço Bobas faz “para de mão”.

Realmente uma jornada impressionante e inspiradora. Eu mesmo me lembro de alguns encontros em que pude vê-lo atuando e conversando um pouco. Sempre havia um novo projeto, o que mostra que você realmente é um artista inquieto. Boris, considerando esta longa trajetória artística, quais experiências marcam (festivais, espetáculos, viagens, …) de modo ímpar a sua vida?
Eu acredito que tive muita sorte de trabalhar com boas companhias. A Intrépida Trupe foi bem legal, marcou uma época na minha vida e me amadureceu como artista de circo. O trabalho com Tou Fou Too Fly na França foi breve, porém espetacular. A rede do trapézio de voos estava a 9 metros de altura, o público embaixo. Às vezes tinha tanta gente que não dava pra ver o chão. Alucinante! Em 2008, no tempo que passei com a minha família em Paraty, montei um espetáculo em coprodução com o Teatro Espaço de Paraty, companhia dos meus pais. Aliás, o meu pai gosta de dizer que fui buscar a minha herança.
Palhaços Sem Fronteiras e os bastidores da Capatazia no Circ Cric
Realmente é um marco na minha vida profissional, aprendi muito nesse ano e meio que passei criando com eles. Acho que foi o espetáculo mais completo que criei, oferecendo um aprendizado forte, e certamente um degrau acima na minha carreira artística. As expedições com Palhaços Sem Fronteiras também, certamente marcaram minha vida, todas um pouco e cada uma diferente da outra. Estar em turnê em um circo é muito bom. No Cric aprendi muitas coisas, entre elas montar e desmontar. Fui capataz por vários anos, e jamais esquecerei. Essa é outro saber do circo que me encanta. Conhecer o material e saber usar é muito diferente.
A sensação de entrar no picadeiro para trabalhar quando foi você que montou o circo é diferente! E, por fim, começar a trabalhar como palhaço ao lado grandes nomes como o Tortell e a Titat foi mais um presente que a vida me brindou.
Escutando esse seu breve relato, notamos experiências artísticas atuando em espetáculos de rua, em espaços fechados (teatros) e também sob a lona. O que você destacaria de cada um deles (suas diferenças, particularidades, curiosidades)?
É muito interessante essa pergunta. Com o Tortell criamos um espetáculo de palhaços para teatro. E depois de uma temporada trabalhando à italiana, decidimos fazer o mesmo espetáculo no picadeiro. O espetáculo ficou uns 15min mais longo, fazendo as mesmas coisas, parece que no picadeiro tem que fazer os gags para os três lados e leva mais tempo.
No princípio desse ano estive trabalhando no Teatro Espaço de Paraty, é um teatro pequeno, com 100 lugares, o palco tem 5 metros de boca (frente). É como botar uma lupa no que você tá fazendo, permitindo usar detalhes muito sutis, uma delícia.
O palhaço em diferentes espaços
Como palhaço nos últimos anos pude apresentar o mesmo número em espaços muito diferentes. No Iraque fizemos um show para umas 200 crianças em uma tenda da Organização das Nações Unidas (ONU), tínhamos que fazer malabares de joelho pela pouca altura. No Circ Cric em um show de música para uns 1000 jovens de entre 18 e 30 anos, em uma cidade que perdeu 60 idosos de uma vez só durante a pandemia, o tema das máscaras também foi um aprendizado. Tivemos que aprender a ler o sorriso nos olhos do público. Cada espaço, situação, cada público tem seu aprendizado.
O Tortell uma vez disse que um espetáculo de palhaço não é o que o palhaço faz, é o que acontece naquele lugar em que o palhaço está se apresentando. Eu gosto muito dos três espaços, mas é importante saber que é diferente e estar preparado para o espaço que você vai trabalhar. Tem coisas que simplesmente não são adequadas para um espaço e sim para outro. E tenho que confessar que tenho um carinho especial pela lona de circo, o picadeiro, principalmente se tive a sorte de ter montado a lona e de estar em temporada com o circo, dormir comer, viajar, atuar… Adoro circo!

Como você sabe também pude colaborar com Palhaços sem Fronteiras nos anos em que morei na Espanha e tive o privilégio de participar de uma Gala de PSF com Tortell, mas nada comparado com a sua longa convivência pessoal e artística com esse gigante que tem uma ótima e longa relação com o Brasil e muitos artistas brasileiros. Logo, não poderia deixar de pedir que nos contasse algo mais sobre a sua experiência de atuar com Tortell Poltrona no Circ Cric e em outros espaços/espetáculos.
No começo não me dava conta. Um dia percebi que estava a umas quantas temporadas assistindo aos mesmos números e rindo dos mesmos gags. O Tortell é um palhaço muito constante, muda muito pouco a pouco as entradas, está sempre muito atento ao que funciona, ao ritmo dos números. É muito intuitivo, acho que ele aprendeu fazendo, nem ele sabe como sabe, portanto não é muito bom ensinando. Para aprender dele é melhor observar do que perguntar! Ele é muito trabalhador e sempre está com algum novo projeto.

A parceria com a Srta Titat
Comigo sempre foi bastante generoso, como um padrinho. Graças a ele voltei a pintar a cara e estou me divertindo muito como palhaço. Vale lembrar que ele não está só, tem a Montse Trias, Srta Titat. Gosto de dizer que o palhaço branco é o portor dos palhaços, é fundamental, mas prestamos menos atenção nele normalmente. Também é um lugar interessante para estar o de palhaço branco, tive poucas oportunidades, mas é uma experiência muito legal, um “Augusto” que sabe o lugar do branco ajuda o branco, eu aprendo muito com a Titat, observando o jeito dela trabalhar.
Atuando como Contra-Augusto ao lado de um Mestre
O Tortell é dos grandes, ele tem um bom portor, muita sorte e muito trabalho em cima. É um maestro dos espaços, já esteve em muitos cenários diferentes, tem uma experiência brutal e sabe usar, sabe sair na cena com eles atuando como “Contra-Augusto”. É superfácil e superdifícil ao mesmo tempo.
Fácil, porque sei que o show vai funcionar quase ao 100%. Ele tem uma hora e meia de show sozinho, não preciso fazer nada, ele resolve! Mas também é difícil, porque quero estar à altura da sorte que tenho de estar ali. Tenho que ficar de olho para encontrar a minha deixa, meu espaço, minha maneira de somar no meio de uma relação de branco augusto de quase meio século, trabalho de formiguinha. Pouco a pouco vou me achando, me infiltrando no mecanismo deles e aprendendo sistemas, de onde vem os gags uma escola de muita pratica e pouca teoria.
Vamos mudar de assunto Boris. Conte-nos sobre a sua experiência com Palhaços sem Fronteiras (PSF). O que viu? O que aprendeu? O que acha que a arte pode fazer em situações-lugares tão vulneráveis?
Com PSF fiz cinco expedições, uma muito diferente da outra. A primeira foi para o Congo, a segunda para o Iraque, depois Serra Leoa, Líbano e, por último, Polônia.
No começo eu era reticente, pois tem um lado disso que é para quem vai, para o artista, para o seu ego. Mas o que fica é muito forte! Na expedição em que fui para o Líbano, nos acompanharam alguns pesquisadores para tentar estudar o efeito do nosso trabalho nos campos de refugiados. Sei que os resultados foram muito positivos, embora eu já soubesse, mediante a minha experiência. Estando no terreno, fica claríssimo, mas de fora é mais difícil entender o que acontece nas expedições.
Levando a arte do palhaço para refugiados ucranianos
Na última expedição que fiz, na Polônia, para refugiados ucranianos, chegamos muito no começo da guerra. Quando chegamos as autoridades ainda não tinham se organizado direito, chegávamos em um galpão com 5000 refugiados, 200 voluntários, bombeiros, militares médicos, enfermeiros, infraestrutura, toda a parafernália. Dissemos: “oi, somos um grupo de palhaços de Barcelona e viemos fazer um show para os refugiados”. Na maioria das vezes, os caras achavam que a gente estava maluco, mandavam a gente sair dali e não atrapalhar. Em uma ocasião, o responsável de um campo nos disse: “meus refugiados não precisam rir, eles precisam comer, descansar e se abrigar do frio de -2°C”.
O nosso representante respondeu: “Fala pra eles”, apontando para os refugiados que estavam se posicionando em volta do nosso material para ver o espetáculo. É uma ideia tão absurda que é difícil de imaginar, mas depois do show ficava muito claro. Todos assistiam, entendiam e agradeciam, refugiados, voluntários, militares, bombeiros, todos se convertiam em público.
Da crise do ebola em Serra Leoa ao poder de transformação Social pelo riso
Em Serra Leoa, fomos numa missão durante a crise de contágio do Ebola e durante 15 dias sem poder tocar em ninguém. Uma paranoia! Essa foi, para mim, uma prévia para a pandemia que vivemos todos depois com o Covid-19.
Uma vez em Belo Horizonte meu pai pegou um táxi e não sei como aconteceu que ele falou para o motorista que eu tinha feito expedições com PSF. E o cara do táxi pediu para me conhecer. Estávamos em um festival de bonecos, a estreia do meu projeto com a companhia Bool. O cara do táxi ficou esperando na porta do teatro. Meu pai foi me buscar. O taxista tinha trabalhado em um campo de refugiados enterrando os mortos e queria me conhecer, porque disse que, em um campo onde ele trabalhava, o número de mortes infantis reduziu significativamente depois de uma visita dos PSF.
Boris, nas suas idas e vindas, você pôde participar de muitos festivais e ações no Brasil. Inclusive comentou sobre a experiência em Paraty. Pergunto, então, como é voltar ao Brasil? E, para completar, você pretende permanecer no estrangeiro ou tem planos para regressar definitivamente ao Brasil?
A verdade é que trabalhei pouco no Brasil depois que eu imigrei para a Europa. Atualmente eu não tenho planos nem de voltar nem de não voltar, mas tenho planos de trabalhar mais pelo Brasil. Ando com vontade de excursionar pela América do Sul, de viajar por essas terras. Também ando querendo passar mais tempo com meu pai e, como as minhas filhas cresceram, tudo isso fica mais fácil agora. Esse ano a Marina, minha filha mais velha, fez 18 anos, fomos para o Brasil juntos, foi muito legal. Trabalhamos juntos e assim lembrei de quando era adolescente e fazia de técnico nas viagens dos meus pais.

Do quadrante coreano aos cuidados médicos
Depois de operar o joelho foi levado a procurar outras formas de atuar. Boras era portor de quadrante coreano, tinha um número de barra fixa e estava com mais 40 anos quando o seu joelho precisou de cuidados. Esse espetáculo se chamava “Barreja”, “mistura” em catalão. Foi dirigido por Tortell Poltrona, com a companhia Circo Los, conhecidos nessa época com o Xarivari Blues. O espetáculo circulou pouco, pois exigia muita técnica, muito treinamento e, depois de uma tentativa de reestreia com direção do Jordi Aspa, acabei fazendo outro espetáculo de palhaço, “Naguis & Bobas” que ficou muito bom. De todos os modos, o Barreja foi um espetáculo que me preparou para o palhaço, para o Bobas.
Sabemos que há muitos/as brasileiros circulando internacionalmente e que você trabalhou com muitos deles. Quem? Onde? Poderia falar um pouco mais sobre isso?
Trabalhei, sim! Eu atuei muitos anos com o Igor, grande portor, meu compadre e quase um irmão. Trabalhei com Arnaldo Costa, grande trapezista. Com a Isabel, com o Antonio Firmino e o Roberto Carlos, grandes acrobatas. Tive o prazer de trabalhar com o Claudio Parente, paradista e grande amigo do tempo da Intrépida Trupe. A Dani de Castro, hoje em dia aposentada do circo. Adriano Marçal e Fernanda, casal super “cirquero” das primeiras formaturas da ENC.
Rede de profissionais da Escola Nacional de Circo

Guga, que me deu vários toques de cascadas e me inspirou com a barra fixa. Estive trabalhando também com o Bruno e o Nelson dos Mustache Brothers, com a Carol Correa, Flavio Franciule e outras feras. Trabalhei com a Carla Dias que me animou a entrar na escola de circo. Com o Joe, trapezista acrobata, Pedrinho, trapezista, acrobata e malabarista. Enfim, tive muita sorte. Todos os que encontrei e coincidi trabalhando, tive boa relação e aprendi várias coisas com eles. Sensacional!
Na sua opinião, como vem sendo o papel das escolas de circo na formação dos novos artistas?
Acho muito importante. As escolas de circo estão cada vez melhores, mais completas e formam artistas cada vez mais competentes e preparados para o mercado. A técnica se desenvolveu muito e acho que as escolas contribuíram muito para isso, misturando professores de ginástica com gente de circo tradicional, dança de todos os tipos, dramaturgos, etc. Muitos intercâmbios interessantes foram feitos graças às escolas e o resultado está nos picadeiros mundo afora. O circo deu uma volta muito legal com o surgimento das escolas de circo e cada vez tem mais escolas, mais especializadas. Tomara que siga assim!

As novas vertentes da arte circense na sociedade
Outro aspecto bacana das escolas de circo é que no momento em que diferentes tipos de gente tiveram acesso às técnicas de circo, apareceram diferentes maneiras de usar essas técnicas. Entendo que as escolas de circo provocaram também um “boom” criativo no mundo do circo, espalhando o circo por todos os lados: circo fitness, circo terapêutico, circo dança, circo teatro, circo pedagógico, circo social, circo no semáforo, circo extraescolar… Fantástico! Circo para todos os gostos, como eu gosto de dizer!
Com base nessa vida de artista de circo, o que você vê como tendência para o futuro do circo? Teria alguma sugestão para jovens que desejam ser artistas de circo?
Me parece que a tendência para o futuro, não só no circo, mas sim para quase tudo, é a criatividade. No meio artístico, isso fica bastante evidente. A técnica é uma ferramenta para a criatividade, tem que trabalhar duro na técnica, mas não pode esquecer de desenvolver a maneira de mostrar essa técnica. Um bom artista para o meu gosto, é o que consegue esse equilíbrio. E, quando digo isso, não estou me referindo só à estética. É preciso saber chegar ao público, atingi-lo, comunicar o que se quer comunicar e receber o que espera em troca. Isso é o que faz um artista feliz. É nisso que eu boto minha energia e meu tempo.

Para continuar na alegria do circo leia também Karla Concá: ‘Uma mulher que gargalha libera a garganta de muitas mulheres’
Marco Antonio Coelho Bortoleto é um renomado professor, pesquisador e ex-artista circense brasileiro, amplamente reconhecido como uma das principais referências acadêmicas no estudo das artes circenses e da ginástica no Brasil. Doutor pela Universidade de Lleida / Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha (INEFC) na Espanha e Livre Docente da FEF-UNICAMP.

