ISSN 2764-8494

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Educonexão: A Educação Popular no cenário digital

Introdução

O conceito de Educonexão nasce a partir de uma percepção que mobilizou educadores populares no Rio de Janeiro. A tensão entre metodologias do trabalho educativo e as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) vinha se intensificando e eclodiu em meio à pandemia. De fato, nos últimos anos, a digitalização dos processos de ensino trouxe à tona grandes desafios.

Dentre eles, a coerência com processos participativos é vital para movimentos sociais e organizações da sociedade civil (OSC) que focam na formação de sujeitos políticos. Mais do que isso, as práticas da Educação Popular são essenciais para qualquer ação em uma perspectiva de promoção de direitos. Estamos falando do desafio de mediar o conhecimento em meio digital sem cair nas armadilhas da passividade e do isolamento. Como desenvolver processos formativos e de produção dialógica do conhecimento na web escapando ao conteudismo mais conservador.

É nesse cenário de inquietação que emerge o conceito de Educonexão. Desenvolvido por um coletivo de educadores populares, pesquisadores e designers, o conceito toma corpo pela primeira vez em 2020, bem no meio da pandemia global. Esse processo de reflexão coletivo foi se dando de forma paralela ao desenvolvimento da Plataforma Pluriverso. 

No início, ainda como startup em fase de ideação, a Pluriverso contemplava um ecossistema mais diverso e complexo. Logo, o entrelaçamento do conceito e da plataforma se deu de forma natural. Após os primeiros percursos formativos da OSC BemTv e do NEABI/IFRJ Nilópolis em 2021 a Pluriverso se consolida como a primeira plataforma de Educonexão. A abordagem inovadora da Educonexão nasce como uma resposta crítica aos moldes tradicionais do ensino online, propondo uma virada pedagógica e tecnológica. Mais do que uma simples ferramenta, a Educonexão surge para conectar trajetórias coletivas, movimentos e territórios em torno de causas comuns e percursos formativos participativos.

1. Educonexão como alternativa ao EaD

O conceito de Educonexão é hoje central para o sistema da Pluriverso e mesmo para sua arquitetura como SaaS 1Software como Serviço, na sua sigla em inglês. Ele é concebido como uma abordagem inovadora para a gestão de processos dinâmicos e coletivos de ensino-aprendizagem. Parte do inovador do conceito está em seu caráter híbrido. Ou seja, ele opera, ao mesmo tempo, como abordagem pedagógico-metodológica e como base para o desenvolvimento de interfaces digitais otimizadas pelos estudos de UX/UI 2Design de interface é o desenvolvimento de computadores, aplicações, máquinas, dispositivos de comunicação móveis, softwares e sítios web com o foco na experiência dos usuários e interação. Também conhecido como UI (User Interface) design, é uma disciplina que se concentra na criação de interfaces gráficas interativas para sistemas digitais.

De fato, o conceito ajudou à contrução de interfaces que facilitam às organizações a implementação de percursos formativos participativos e a criação autônoma de comunidades, foruns de debate e redes. Tudo dentro de um mesmo ecossistema amigável, e seguro.

Mas muito antes de chegar a isso, as primeiras reflexões que levaram educadores populares, pesquisadores e designers a desenvolver o conceito — entre eles Daniela Nunes Araújo, Claudio Barría Mancilla e Paula Latgé — surgiram a partir de uma primeira reação de estranhamento ante o nome dado comumente ao ensino online: Educação à Distância (EaD)

O questionamento central do grupo era inquietante: como juntar educação e distância em um mesmo conceito e continuarmos em coerência com nossa longa trajetória de aprendizados advindos da práxis coletiva da Educação Popular?

Logo nos primeiros meses da pandemia global, essa incongruência parecia se agudizar. Parecia que no meio digital só era possível a reprodução de práticas conteudistas e lineares da educação, onde um expõe conhecimentos e o outro recebe, sem diálogo nem interação. Na contramão, o termo Educonexão passou a carregar consigo elementos de uma filosofia pedagógica para os processos de ensino-aprendizagem em meio digital. Colocavam-se as bases de um conceito que permitia ao coletivo desenvolver um tipo de interface voltado à implementação de percursos formativos autônomos e à construção de comunidades dentro da Pluriverso.

Cards De Percursos Da Plataforma De Educonexão Pluriverso

2. Tecnologia open source como opção ética e política

A base para essa abordagem tecnológica e pedagógica já é robusta e vem de longa data. Por certo, ela aproveita experiências existentes, conhecimentos acumulados e tecnologias colaborativas da cibercultura, como softwares de código aberto (Open Source), licenciamento Creative Commons e iniciativas Open Access. Esses recursos permitem o desenvolvimento de estratégias de mediação seguras, eficientes e autônomas.

A adoção dessas tecnologias não é uma escolha técnica, mas uma declaração ética e política que visa construir uma infraestrutura digital na contramão da lógica do capitalismo de vigilância e da espetacularização. Open Source e Creative Commons são tecnologias que emanam princípios promotores da colaboração, da transparência e da autonomia do usuário. Assim, em um movimneto pela soberania digital, se contrapõe ao controle proprietário e à monetização de dados.

Entendemos que não é possível separar tecnologia e visão de mundo, isto é, nossas opções são sempre opções políticas.

Ao escolher essas bases, a Pluriverso está construindo uma alternativa digital que reflete seus valores descoloniais e de economia solidária, garantindo soberania digital, assim como uma tecnologia que sirva à “potência civilizatória” dos sujeitos subalternizados, e não ao controle corporativo.

3. Territorialidade e convergência de saberes na Pluriverso

O conceito de educonexão e sua primeira experiência concreta, a plataforma Pluriverso, surgem na contramão das tendências de mercado. Enquanto a tendência é o foco no individuo, elas buscam conectar trajetórias coletivas de movimentos, territórios e organizações em torno de causas e percursos formativos.

É fundamental destacar que a Educonexão não se restringe ao uso de tecnologias digitais, nem se esgota nos ambientes digitais, embora não prescinda deles. Pelo contrário, trata-se de um conceito complexo e interplataforma. Ele se propõe a contribuir como espaço de mediação de processos sociais em diversos ambientes que questionam e interpolam virtualidades de processos coletivos de diálogo de saberes a partir de territórios locais também diversos.

Como desdobramento do fazer-pensar a educação popular, o conceito de Educonexão se sustenta no entendimento de que a convergência de trajetórias coletivas em torno de uma ideia força ou de uma causa comum produz conhecimento politicamente pertinente. Isso ocorre a partir da ampliação da superfície de contato dos sujeitos envolvidos, expandindo significativamente o impacto de suas ações.

Encontro De Jovens De Pct No Projeto Territórios Vivos Da Bemtv Que Ocorreu Na Plataforma De Educonexão Pluriverso

4. As raízes teóricas da Educonexão: da práxis à epistemologia

Nesse sentido, ganha relevância e contexto o primeiro registro do conceito de educonexão, definido no artigo acadêmico “Comunicação, educação e vigilância popular em saúde em tempos de COVID-19” (LATGÉ; ARAUJO e SILVA JÚNIOR, 2020). Ali, ele é caracterizado como relativo à construção de processos coletivos, orgânicos e colaborativos para potencializar a construção dialógica de conhecimento. Trata-se de uma conexão educativa que integra ferramentas digitais a práticas orgânicas e territorialidades, postas em relação em uma epistemologia de polifonia de saberes.

Em um sentido mais amplo, podemos apontar que a Educonexão, está longe de ser um novo modelo de plataforma de EaD. Muito pelo contrário, ele constitui uma abordagem pedagógica que entrelaça, de forma inovadora e até improvável, conceitos da educação popular, do webdesign e da comunicação.

Desse modo, essa articulação se consolida ao cruzar a compreensão da Educação (Paulo Freire), da arte (Ana Mae Barbosa) e da Comunicação (Jesus Martin-Barbero, Muniz Sodré) como espaços legítimos de mediação social e cultural. Portanto, partir desse entendimento, a Educonexão busca tecer e aproximar as três tecnologias da memória apontadas por Pierre Lévy: a oral, a escrita e a informática.

Certamente, este artigo apresenta apenas algumas pinceladas sobre o conceito de educonexão. Cada um dos tópicos abordados poderia ser desdobrado, aprofundando a comunicação de uma pesquisa ainda em andamento. Entretanto, consideramos importante entregar ao público geral uma primeira percepção de um conceito já presente em diversos estudos acadêmicos e validado por instituições de prestígio como a FAPERJ. Foi, decerto, a sua validação do conceito de Educonexão como base científico tecnológica para o empreendimento da plataforma Pluriverso a que permitiu a introdução no ecossistema de Deeptechs de impacto social.

Leia também Territórios vivos, o futuro é ancestral e Jovens Defensores Populares: Educonexão e Direitos
para saber sobre projetos com grande impacto através da Educonexão utilizando a plataforma Pluriverso


Claudio Barría Mancilla é músico, doutor em Educação pela UFF, pesquisador do NIRA/FFP/UERJ e membro fundador do Coletivo Pluriverso e do Conselho Editorial da Revista Pluriverso.

(*) Notas

  • 1
    Software como Serviço, na sua sigla em inglês
  • 2
    Design de interface é o desenvolvimento de computadores, aplicações, máquinas, dispositivos de comunicação móveis, softwares e sítios web com o foco na experiência dos usuários e interação. Também conhecido como UI (User Interface) design, é uma disciplina que se concentra na criação de interfaces gráficas interativas para sistemas digitais.

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