Sabe quando alguém corrige um “os menino” ou um “pobrema” com aquele ar de superioridade, como se aquilo fosse apenas “ignorância”, desleixo ou falta de estudo? Pois é, está na hora de a gente atualizar alguns conceitos e para isso, nada melhor do que o trabalho da Lélia Gonzalez, uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país.
O que muita gente chama de “falar errado” é, contudo, uma das maiores marcas de resistência cultural do nosso país. Agora, será que é isso? Vamos tentar entender melhor o conceito de Pretuguês, um termo cunhado pela intelectual Lélia Gonzalez e essencial pra entender quem somos.
O que é o pretuguês?
A influência das línguas africanas na gramática do português brasileiro é profunda e transformou o idioma em um sistema lógico próprio. É esse processo que Lélia Gonzalez denominou como “Pretuguês”.
Na década de 80, enquanto o Brasil se organizava para os 100 anos da abolição, Lélia Gonzalez analisava as festas populares e percebeu algo brilhante. O português falado no Brasil não era só uma variação do europeu.
Ele era um sistema lógico próprio, moldado pela influência dos africanos escravizados que foram forçados a aprender a língua do colonizador

O Pretuguês é a prova de que a população negra não apenas aprendeu o português, mas o transformou em um território de preservação cultural. Eles remodelaram a gramática, os sons e a musicalidade das línguas europeias com a estrutura de suas línguas maternas.
A Lógica por trás do “Erro”
Em Portugal, a gramática exige que você marque o plural em todas as palavras: “Os meninos foram às casas”. Já nas línguas banto, marcar o plural uma única vez no início da frase já é o suficiente para o entendimento.
- Quando dizemos “os menino” ou “as casa”, estamos seguindo essa lógica.
- Se o artigo “os” já indica que é mais de um, certamente repetir a marcação no substantivo seria redundante. O trabalho de comunicação já foi feito.
Os portugueses europeus costumam usar construções complexas para marcar o tempo exato de uma ação, como “eu havia estado fazendo”. No Brasil, preferimos focar em como a ação se desenvolve.
- Construções como “tô fazendo” ou “tava fazendo” priorizam o aspecto da ação: se ela foi rápida, se demorou ou se continua acontecendo.
- Essa é uma característica típica de línguas africanas que incorporamos ao nosso cotidiano.
Sabe o famoso “brusa” em vez de “blusa”? Isso não é preguiça nem falta de educação. Historicamente, como o som do “L” não existia em muitas das línguas africanas que chegaram aqui, ele foi substituído pelo som mais próximo disponível: o “R”.
É amplamente reconhecido por linguistas que o tronco linguístico banto (especialmente o Quimbundo e o Quicongo) legou ao português brasileiro centenas de palavras que usamos diariamente, como “caçula”, “moleque”, “samba”, “cochilar”, “fubá”, “bagunça” e “coringa”. Além disso, essas palavras são exemplos diretos de como o vocabulário foi expandido para além das adaptações gramaticais.
É uma memória linguística impressa na nossa fala até hoje.
Resistência em cada sílaba
Lélia Gonzalez nos mostrou que, mesmo proibidos de falar suas línguas nativas e manter suas tradições, os africanos escravizados e seus descendentes encontraram uma forma genial de resistir. Eles “hackearam” o sistema linguístico do opressor.
Entender o Pretuguês é entender que a nossa língua é viva e carrega a história de quem construiu este país. Da próxima vez que ouvir alguém criticar essas marcas de fala, lembre-se: não é erro, é herança e resistência.
Portanto, o Pretuguês revela que o jeito brasileiro de falar é uma prova concreta de como a população negra transformou a língua que foi forçada a aprender em um instrumento de manutenção de identidade
Valorizar o Pretuguês é uma forma de combater o preconceito linguístico e reconhecer a profundidade da cultura negra na formação da identidade brasileira. — Dica da Pluriverso
Folclore? Manifestações desorganizadas? Não, é resistência
Além da resistência linguística, Lélia Gonzalez identificou a resistência cultural por meio da análise das festas populares brasileiras.
Ao observar essas festas na década de 1980, Gonzalez percebeu que o que muitos viam apenas como folclore ou manifestações desorganizadas eram, na verdade, espaços de preservação de tradições africanas que haviam sido proibidas durante a escravidão. Ela compreendeu que a população negra não apenas resistiu fisicamente. Pelo contrário, ela encontrou formas geniais de manter sua cultura viva, remodelando os elementos impostos pelo colonizador — como a religião e as festividades — com a lógica e a musicalidade de suas matrizes originais.
Em sua obra acadêmica Lélia Gonzalez costumava analisar manifestações como o Carnaval, as Congadas, o Maracatu e os Reisados para discutir como a cultura negra se preservou e se transformou no Brasil.
Dessa forma, as festas populares são apresentadas como um campo onde a memória e a identidade africana foram impressas na cultura brasileira. Elas transformaram o que era proibido em um território de manutenção de raízes.
A seguir temos um vídeo para você mergulhar um pouco mais no assunto. Viva o Pretuguês!
Livros Autorais e Coautorias da Lélia Gonzalez
Além das contribuições sobre o “Pretuguês”, a obra de Lélia Gonzalez é vasta e abrange livros, ensaios e artigos que articulam as lutas de gênero, raça e classe. Entre suas principais produções estão:
| Lugar de Negro (1982) | Escrito em parceria com Carlos Hasenbalg, foi seu primeiro livro autoral | A obra apresenta um panorama histórico do modelo econômico brasileiro após 1964, analisando a inserção da população negra nesse cenário e resgatando a história dos movimentos sociais negros |
| Festas Populares no Brasil (1987) | foi o segundo livro autoral publicado por Lélia Gonzalez. | Neste livro, Gonzalez registrou e analisou a diversidade das manifestações culturais brasileiras, vendo nelas espaços de manutenção da identidade africana,. |
| Por um Feminismo Afro-Latino-Americano | é uma publicação mais recente (2020) | Uma publicação que reúne ensaios, intervenções e diálogos da autora, consolidando seu pensamento sobre o feminismo sob uma perspectiva interseccional,. |
Outras contribuições
Lélia também publicou diversos textos fundamentais para o pensamento crítico brasileiro, muitos deles pioneiros em unir as categorias de raça e gênero como o Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira” (1983). Nesse livro, ela sistematiza a crítica ao patriarcado e ao racismo como dimensões entrelaçadas de dominação.
Em 1988 com texto “A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade” onde desenvolve o conceito de Amefricanidade. Ela propõe uma identidade latino-americana centrada nas experiências e saberes das mulheres negras, subvertendo paradigmas eurocêntricos.
E outros títulos como:

“Mulher Negra, essa Quilombola” (1981): Artigo publicado na Folha de S. Paulo que discute a resistência e o papel da mulher negra na sociedade
“A Mulher Negra na Sociedade Brasileira” (1982): Ensaio que analisa as condições específicas e o lugar social ocupado pelas mulheres negras no Brasil.
Vale ressaltar que, antes de suas obras autorais, sua estreia no mercado editorial ocorreu na década de 1960. No entanto, foi através da tradução de textos filosóficos, como o Compêndio Moderno de Filosofia
Essas obras consolidaram Lélia Gonzalez como uma referência internacional. Portanto, ela é descrita por figuras como Ângela Davis como uma pensadora cujo aprendizado é essencial para compreender a relação entre gênero, classe e raça no mundo.
Para se aproximar um pouco mais do seu pensamento, em torno de um feminismo afro-latino-americano em entrelaço com o pensamento de Glória Anzaldua, super recomendamos o artigo da Skia Nevermore, Feminismo de amasamiento.
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