ISSN 2764-8494

ACESSE

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Feliz ano novo para nós do Sul: em busca do tempo perdido.

O paradoxo do réveillon tropical

Você já parou para pensar no contrassenso que é, em pleno calor estonteante do Cone Sul, estarmos estourando espumante, comendo pratos super calóricos e vestindo branco para saudar o “início” de um novo ciclo? E nem estamos falando do bom velhinho agasalhado para encarar o frio entre pinheiros e paisagens nevadas. É sobre algo mais profundo.

Enquanto derretemos sob o sol de janeiro, a natureza ao nosso redor está no ápice de sua maturação e colheita, e não no recomeço. Se a lógica da vida na Terra é regida pelas estações, então por que o nosso Réveillon não acontece no inverno, quando o ecossistema silencia, descansa e se prepara para renascer? Por que comemoramos o ano novo no verão e não no inverno como acontece em quase todas as culturas mundo afora?

A resposta para essa questão, embora pareça óbvia num primeiro olhar geográfico, mergulha em raízes profundas de dominação cultural, epistêmica e histórica. Para entender por que compassamos nossas vidas pelo ritmo do Norte Global, precisamos fazer uma rápida viagem no tempo até o final do século XV e do XVI, mas colocando antes as lentes do pensamento decolonial latino-americano.

Ano Novo No Sul
Cosmo.so: acervo publico de imagem

A ditadura do relógio e a bula papal de 1582

O grande responsável técnico pelo nosso Réveillon de bermuda e camiseta é o Papa Gregório XIII. Foi ele que, em 1582, por meio da bula papal Inter Gravissimas, instituiu o chamado Calendário Gregoriano para substituir o antigo calendário juliano, que acumulava séculos de erros astronômicos. O objetivo principal da reforma era puramente eurocêntrico, político e religioso (vale lembrar que à época não havia na Europa separação entre a igreja católica e o estado): recalibrar as datas das festividades eclesiásticas (como a Páscoa), ajustando-as perfeitamente aos ciclos equinociais e solsticiais do Hemisfério Norte.

Até aí, tudo bem, cada cultura, cada civilização, reorganiza ao longo da história seus modos de estar no mundo, de fazer e de ritualizar a vida, depois de tudo, a Europa fica no hemisféro norte. Entretanto, um século antes daquela bula (1492 para dar uma data mais precisa) a Europa vinha desenvolvendo um violento processo de expansão territorial e de mercados a partir da ocupação militar e da dominação dos povos da nossa América, o Abya Yala, na mal chamada ‘colonização’. À época, a europa era ainda uma periferia de grandes civilizações, como o Império Otomano (Eurásia/Oriente Médio) que tinha um intenso intercâmbio comercial com o Império Timúrida (Ásia Central, atual Uzbequistão) e a Dinastia Ming (Asia, China).

Europa então, buscava acessar aqueles centros comerciais, o que leva muitos a buscar rotas alternativas. Assim, com a expansão transatlântica e a posterior globalização que consolida o sitema-mundo moderno/colonial, o modelo de contagem temporal passa a se tornar o padrão civil global. Trata-se de uma das maiores heranças da expansão europeia: a imposição de uma convenção local como se fosse uma lei natural e universal para todo o planeta. Mas é importante frisar que, embora essa padonização do calendário seja um fato para questões comerciais, pelo menos 40 outros sistemas de contagem de tempo ainda ativos, utilizados por diferentes culturas e religiões para regular datas comemorativas, litúrgicas ou, em alguns casos específicos, até mesmo como calendários oficiais de estado.

A colonialidade do poder e o sequestro do tempo

America Do Sul: Tradicional Ritual Inti Raymi
Cosmo.so: acervo publico de imagem

Para decifrar esse fenômeno além das datas, os cientistas sociais e filósofos do Giro Decolonial nos dão ferramentas teóricas valiosas. O intelectual peruano Aníbal Quijano introduziu o conceito de colonialidade do poder para explicar que, mesmo após o fim dos impérios coloniais administrativos, as estruturas de dominação sociocultural continuam ditando as regras do mundo contemporâneo. Essa dominação se reflete na economia, no racismo estrutural e, fundamentalmente, no controle da nossa subjetividade e do conhecimento

Quando o calendário europeu é assimilado globalmente, ocorre o que Walter Mignolo conceitua como a colonialidade do tempo e do espaço. Sob a narrativa triunfalista da Modernidade ocidental, a Europa se posicionou como o “presente” e o topo da linha histórica da civilização. Qualquer sociedade que organizasse o tempo ou a vida de outra forma foi classificada como “atrasada”, “primitiva” ou pertencente ao “passado”.

Consequentemente, como bem expressa Enrique Dussel ao desmascarar o Mito da Modernidade, a Europa define a si mesma como o centro da história universal, compelindo a periferia do mundo a se subordinar à sua matriz temporal e cultural. Na mesma linha de pensamento, Ramón Grosfoguel denuncia o racismo epistêmico, o mecanismo institucionalizado que invalida, inferioriza e descarta os saberes, ciências e organizações cosmológicas que não tenham nascido no berço das academias ocidentais. Portanto, ao celebrarmos o ano novo em 1º de janeiro, reproduzimos inconscientemente uma herança colonial que ignora a própria realidade do solo que pisamos.

O solstício de inverno e o reinício do ciclo vital, o verdadeiro ano novo do Sul

Diferente da lógica artificial do mercado e dos decretos papais, os povos originários da América do Sul nunca precisaram de cronômetros europeus para compreender as engrenagens do tempo; eles simplesmente escutam a própria Terra. E vêm fazendo isso há milhares de anos. No Cone Sul e na região andina, o verdadeiro recomeço da vida está intrinsecamente ligado ao solstício de inverno (por volta de 21 de junho), o momento em que a noite atinge sua duração máxima e o Sol inicia o seu caminho gradual de retorno, simbolizando o renascimento da biodiversidade.

Resgatando a rica cosmovisão guardada pelas comunidades nativas, o ano novo dos povos originários revela uma sintonia profunda com os ciclos naturais da região:

Inti Raymi, Festa Dp Sol Que Marca O Início Do Ano Andino Celebrado No Solticio De Inverno.
Cosmo.so: acervo publico de imagem

Inti Raymi (A Festa do Sol):

Celebrado historicamente pelos povos Aymara e Quechua na Bolívia, no Peru (principalmente na região de Puno) e em porções do norte da Argentina, este evento marca o ano novo andino no dia 21 de junho. Na cosmovisão andina, o deus Sol (Inti) encontra-se no seu ponto mais distante da Terra e começa a se reaproximar do planeta para aquecer o solo e favorecer o próximo cultivo, ocorrendo logo após o término da colheita. A festividade é um momento de profunda gratidão à Pachamama pelas provisões recebidas. Durante o amanhecer, os participantes realizam o ritual sagrado de erguer os braços em direção ao leste para absorver e se revitalizar com as energias purificadoras da primeira luz solar.

We Tripantu (ou Wiñoy Tripantu / Wiñoy Txipantu):

Trata-se da milenar celebração do povo Mapuche, habitante originário do Chile e do centro-sul da Argentina, que assinala o “retorno do sol” ou o Ano Novo Mapuche. Com início fixado entre os dias 20 e 24 de junho, o rito coincide com o ápice do solstício de inverno no hemisfério meridional. Os Mapuche compreendem que o outono serve para derrubar as folhas velhas e fazer os animais mudarem de pelagem, carregando uma necessária renovação para enfrentar o inverno. Este período evoca a reconexão da matéria com o espírito, fortalecendo a relação comunitária com a Ñuke Mapu (Mãe Terra) e preparando as famílias para um novo ciclo produtivo. Existe a crença espiritual de que, na madrugada desta data, as águas dos rios mudam temporariamente de temperatura e são abençoadas, levando os indivíduos a tomarem banhos coletivos ao amanhecer para purificarem seus corpos e afastarem as energias negativas.

We Tripantu, Festa De Ano Novo Do Povo Mapuche, No Sul Do Continente

Descolonizar o calendário para reabitarmos o Sul

Comemorar a virada de ano no dia 1º de janeiro cumpre um papel prático inegável para a engrenagem burocrática e mercantil do capitalismo globalizado. No entanto, se despirmos nossos olhos das lentes eurocêntricas, celebrar o ápice do verão como o “início” de um ciclo de vida evidencia o quanto a nossa percepção existencial é atravessada pela geopolítica da razão que organiza ainda hoje o sistema-mundo moderno/colonial, ao ponto da nossa percepção aceitar como naturais padrões do hemisfério oposto.

Olhar para celebrações ancestrais como o Inti Raymi e o We Tripantu não se trata de um mero resgate folclórico ou nostalgia do passado. É um chamado urgente e necessário para que possamos repensar nosso lugar no mundo e descolonizar nossa relação com o tempo e com o nosso lugar no mundo. Afinal, reconhecer que a vida no Sul renasce no recolhimento, no frio e na intimidade do inverno é o primeiro passo para nos reconectarmos de verdade com o ritmo orgânico do território que habitamos.

Como não lembrar do Manifesto “La Escuela del Sur” do artista plástico uruguaio Joaquín Torres García, que em 1942 escrevia: 

A isso tenho chamado ‘La Escuela del Sur’ porque, na verdade, nosso norte é o sul. Não deve haver norte para nós, exceto em oposição ao nosso sul. Por tanto, agora viramos o mapa, e então temos uma ideia verdadeira da nossa posição, e não como o resto do mundo deseja. O ponto de América, de agora em diante, para sempre, insistentemente aponta ao Sul, nosso norte

América Invertida, Gravura De Joaquin Torres García, 1942

Se gostou desse texto que tal ler também a matéria: Sobre descolonização / descolonialidade, mais uma vez?


Claudio Barría Mancilla é músico, doutor em Educação pela UFF, pesquisador e membro fundador do Coletivo Pluriverso e do Conselho Editorial da Revista Pluriverso.

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