ISSN 2764-8494

ACESSE

Saúde e bem viver
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A arte de respirar: dança e canto contra a asma grave

Quando respirar é uma questão

Respirar é um ato tão automático que a maioria das pessoas nem pensa sobre ele. Mas, para quem vive ao lado de uma criança com asma, assim como eu, sabe que é um desafio diário. Quando falamos de asma, entramos em um universo de complexidades, onde a medicina convencional pode encontrar na arte reforços inesperados. 

A infância é uma fase de movimento constante, mas para uma criança com asma, esse ritmo costuma ser interrompido por crises de falta de ar e chiado no peito. No entanto, novos protocolos de saúde estão provando que, longe de ser um impedimento, o movimento guiado pela arte pode ser o melhor remédio para fortalecer os pulmões.  

A asma brônquica afeta milhões de brasileiros e, em crianças, pode ser particularmente desafiadora por envolver processos inflamatórios crônicos que dificultam a passagem do ar devido ao broncoespasmo. Em casos de asma grave eosinofílica, o excesso de glóbulos brancos (eosinófilos) causa uma inflamação persistente que muitas vezes não responde apenas aos tratamentos convencionais, como uso de corticoides inalatórios associados a broncodilatadores. Esse tipo específico de asma acaba exigindo também terapias biológicas inovadoras, como os anticorpos monoclonais.

Minha filha…

Um dos desafios que enfrentamos com a nossa filha Isis, portadora da asma grave eosinofílica, foi a dificuldade de um diagnóstico. Embora a asma seja uma doença conhecida, é constantemente confundida em urgências com laringite, resfriados, bronquiolite e infecções virais recorrentes comuns na infância. Há uma tendência a enxergar as crises como episódios isolados de alergia ou “peito cheio”. Assim, os profissionais nos postos de saúde muitas vezes focam no alívio da crise imediata e negligenciam a investigação preventiva. Tudo isso acarreta ainda hoje, um diagnóstico tardio e a falta de controle da doença.

 Quando falamos em asma e alergias respiratórias é muito comum ouvir conselhos sobre a natação ser uma forma de fisioterapia respiratória, mas o que fazer quando os produtos químicos utilizados em piscinas de uso público causam reações alérgicas graves? Me peguei tendo esse questionamento quando tentamos as aulas de natação, onde ela sempre apresentava coceira intensa na pele e muito sangramento nasal.

Dança: A fisioterapia que encanta 

A Arte Mudando Vidas. Na Foto Isis Magalhães, 9 Anos, Dançarina E Portadora De Asma Grave Eosinofílica. Acervo Pessoal.
Foto de Isis Magalhães, dançarina e portadora de asma grave eosinofílica acervo pessoal

Nossa pneumologista perguntou diretamente a minha filha, qual atividade você gostaria de fazer? E foi aí que a dança se tornou nossa aliada para o controle das crises.

A dança tem se destacado como uma forma de reabilitação pulmonar muito mais atraente para o público infantil do que os exercícios tradicionais. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia SBPT valida cientificamente que programas aeróbicos de intensidade controlada, como coreografias adaptadas, funcionam como condicionamento cardiorrespiratório para o asmáticos. Para uma criança, os benefícios são enormes.

A dança ajuda a criança a desenvolver o controle do relaxamento da respiração, tanto em momentos de esforço quanto durante crises. Os movimentos do jazz por exemplo trabalham a postura e a musculatura acessória, facilitando a expansão pulmonar necessária para vencer a resistência das vias aéreas. A prática regular melhora o condicionamento aeróbico, reduzindo a frequência e a intensidade dos episódios agudos.

O canto como aliado 

Em meio a muito buscar sobre o assunto, tomei conhecimento de projetos como o Canto que Cura” um projeto do Brasil Sem Alergia, voltado para pacientes com doenças pulmonares e respiratórias crônicas na Baixada Fluminense que atua tanto para adultos como crianças. A cantora Alcione, que enfrentou a asma durante sua própria infância, é o exemplo de como o canto fortalece o sistema respiratório. Através do projeto “Musica Pra Respirar, em parceria com o Brasil Sem Alergia, exercícios de fisioterapia são transformados em canções terapêuticas.

Imagem De Brasil Sem Alergia Do Coral Adulto Canto Que Cura, Um Exemplo Da Arte Como Fisioterapia Respiratória Para Portadores De Asma Grave
Imagem de Brasil Sem Alergia do coral adulto Canto que cura

O canto auxilia as crianças no treinamento do diafragma, ensinando elas a controlar a expiração e a aproveitar melhor a capacidade pulmonar. Projetos como o “Canto que Cura” oferecem esse suporte, integrando o tratamento médico ao bem-estar social e cultural.

Além da doença: O impacto psicológico de fazer arte

Um dos maiores ganhos da dança na vida da minha filha, e acredito que na de qualquer criança com uma doença crônica, é a quebra do estigma da “criança doente”. Ao participar dessas atividades, ela se vê capaz de realizar movimentos complexos, aprender coreografias e passos difíceis, o que muda a percepção da própria saúde e capacidade. O ambiente coletivo da dança e do coral combate o isolamento que muitas vezes acompanha as doenças crônicas.

Os tratamentos biológicos modernos e as vacinas de imunoterapia, são o alicerce para controlar a inflamação. O seu papel, literalmente, vital, sem eles, nada mais poderia ser feito. No entanto, a saúde de uma criança vai muito além dos tratamentos médicos e dos exames de sangue.

 Arte: Isis Magalhães Em Movimento De Dança Urbana
Isis Magalhães, acervo pessoal.

Além do inegável impacto físico, que ajuda a preparar o corpo da criança para enfrentar momentos de crise respiratória, diminuindo também sua incidência, acredito que o maior benefício de colocar uma criança com asma em uma aula de dança ou de canto seja a mudança daquele rótulo. Ela simplesmente deixa de ser “a criança sempre doente”, a “coitadinha”, para se tornar uma bailarina ou cantora. Essa mudança de percepção impacta diretamente a autoestima da criança, de um modo que nenhum remédio consegue fabricar.

Cuidar da asma infantil com a arte é devolver à criança o direito de ser criança, garantindo que o seu próximo suspiro não seja de esforço, mas de alegria.

Julia Barbosa é parte da Equipe Editorial da Revista Pluriverso. 

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