A crise climática na nossa América: do El Niño aos territórios
Por mais incrível que possa parecer para muitos, embora os impactos da crise climática estejam presentes das mais diversas formas no nosso dia a dia, muitas pessoas não conseguem enxergar esses eventos climáticos extremos como uma crise sistémica, nem muito menos compreender a relação disso tudo com o modo de produção e reprodução da vida na nossa sociedade. Falta algo, um elo que permita às pessoas perceberem os vínculos entre esses eventos e a nossa realidade social. Sem uma Educação socioambiental crítica, cada evento climático continuará sendo, para muitos, coisas que acontecem, e sempre acontecerão.
Mas os recentes episódios climáticos que atingiram o Brasil e a América Latina em 2026 revelam que o colapso ambiental deixou de ser uma ameaça distante para se tornar um imperativo de sobrevivência. Sob a influência de um evento El Niño de forte intensidade – com temperatura muito fora do normal no Oceano Pacífico superando 1,8°C – , os impactos socioambientais se espalham de forma severa e desproporcional pelo continente. Enquanto a Região Sul do Brasil lida com volumes pluviométricos extraordinários e inundações históricas, as bacias hidrográficas da Amazônia enfrentam secas severas que reduzem o leito de rios cruciais como o Madeira e o Tapajós, isolando comunidades e paralisando a navegação.
Esse padrão de extremos se repete por toda a nossa América: a calha Andina (Peru, Colômbia, Equador e Bolívia) oscila entre estresse hídrico e tempestades avassaladoras, a América Central e o Caribe enfrentam secas crônicas, e o Canal do Panamá vê o nível de seus lagos operacionais despencar, impondo restrições ao tráfego marítimo global. Nas capitais como o Rio de Janeiro, tempestades repentinas, ondas de calor extremas e rajadas de vento fora de escala escancaram a vulnerabilidade das periferias. Diante dessa geografia do risco, compreender e responder à crise climática não é um debate teórico, mas uma questão de justiça territorial e proteção comunitária.
A raiz da Educação Popular: da alfabetização libertadora à ecologia política
Para responder a essa crise estrutural, a lente da Educação Popular oferece os fundamentos teóricos e práticos necessários para superar visões puramente conservacionistas ou ingênuas sobre o meio ambiente. A Educação Popular brasileira fincou suas raízes nas décadas de 1950 e 1960 através das experiências do Movimento de Educação de Base (MEB) e dos Centros de Cultura Popular, sintetizadas no pensamento de Paulo Freire. Fundamentada na dialogicidade, na conscientização e no binômio ação-reflexão-ação (práxis), essa abordagem nasceu como um trabalho coletivo voltado à emancipação das classes populares e ao fortalecimento de seu protagonismo histórico.
Quando a pauta ecológica emergiu no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980, os primeiros modelos de educação ambiental mantinham um caráter predominantemente biológico e instrucional, focado na contemplação da fauna e da flora. Contudo, a aproximação entre a matriz freireana e a ecologia política permitiu o nascimento da Educação Ambiental Crítica. A virada conceitual consolidada no Fórum Global da Sociedade Civil durante a Rio-92 — marco de elaboração do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis — evidenciou que a destruição da natureza e as desigualdades sociais derivam do mesmo modelo econômico de produção e acumulação.
Pesquisadores como Carlos Frederico Loureiro, Philippe Layrargues e Mauro Guimarães apontam que correntes pragmáticas e comportamentais, ao reduzirem a pauta ecológica a pequenos hábitos individuais como a reciclagem, correm o risco de individualizar responsabilidades e desonerar os grandes agentes econômicos.
Em contraposição, a Educação Popular reitera, com Marcos Reigota e Pedro Roberto Jacobi, que o meio ambiente é indissociável do exercício da cidadania e da governança participativa, exigindo que o povo reconheça e dispute as decisões sobre seu próprio território.

Movimentos sociais e a práxis nos contextos não escolares
Ainda que o Brasil tenha edificado um arcabouço normativo avançado — desde o artigo 225 da Constituição Federal de 1988 até a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA – Lei nº 9.795/1999) —, a aplicação escolar enfrenta gargalos históricos, como a falta de formação docente continuada e a fragmentação disciplinar. Por isso, é nos espaços não formais, conduzidos pela sociedade civil organizada e pelos movimentos sociais, que a Educação Socioambiental em perspectiva popular atinge sua máxima potência transformadora.
Os movimentos sociais atuam como força instituinte do conhecimento pedagógico. No campo, a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) articulou a Educação do Campo à agroecologia, à defesa da reforma agrária e à recuperação dos ecossistemas degradados pelo agronegócio. Nas cidades, as associações de bairro, os Centros de Defesa dos Direitos Humanos (CDDHs) e os coletivos de periferia pautam o racismo ambiental, reivindicando saneamento, habitação digna e proteção contra enchentes e deslizamentos.

Essas iniciativas comunitárias demonstram que o saber socioambiental não é transmitido de forma hierárquica por um “educador erudito”, mas gestado coletivamente na vivência das lutas territoriais. A sociedade civil atua diretamente na prática por meio de articulações e projetos de base:
- Gestão e Monitoramento Participativo: Organizações como a Fundação SOS Mata Atlântica capacitam estudantes e moradores para o monitoramento participativo da qualidade da água de rios urbanos, transformando a medição técnica em instrumento de cobrança política local.
- Defesa dos Territórios e Almanaques Socioambientais: O Instituto Socioambiental (ISA) produz materiais pedagógicos construídos com povos originários e comunidades tradicionais na Amazônia e no Cerrado, conectando a preservação da biodiversidade ao direito à terra.
- Resiliência e Espaço Público: O programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, fomenta a arborização e o acesso ao ar livre no espaço urbano como estratégia de mitigação às ilhas de calor e promoção da saúde infantil.
- Formação de Lideranças de Bairro: As Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida (Com-Vida) e o Projeto Salas Verdes mobilizam jovens periféricos para diagnosticar os problemas socioambientais do entorno e organizar planos de ação comunitária.
Saberes originários como defesa irrenunciável da vida
Enfrentar a gravidade da crise climática continental requer reconhecer que os saberes acumulados por povos indígenas, quilombolas, caiçaras e comunidades ribeirinhas não são vestígios do passado, mas tecnologias contemporâneas de convivência com a Terra. A conservação das florestas, biomas e mananciais sul-americanos sempre esteve ligada aos modos de vida tradicionais e ao manejo comunitário desses grupos.
Integrar esses conhecimentos ao debate público e à formação cidadã vai além da reparação histórica; trata-se de uma condição indispensável para a manutenção das condições de vida no planeta. Como provocam Claudio Barría e Júlia Barbosa, ao questionarem se há futuro sem as populações tradicionais, esses povos representam a primeira e principal linha de defesa contra o avanço do desmatamento e o agravamento do aquecimento global. Sem a garantia de seus territórios e o respeito às suas epistemologias, qualquer projeto de desenvolvimento torna-se insustentável.
Construir uma educação socioambiental popular significa, portanto, instrumentalizar as comunidades para que leiam a realidade do próprio território, interpretem os sinais do tempo e exijam transformações estruturais das autoridades. É a partir da união entre o saber acadêmico, as pautas dos movimentos sociais e a ancestralidade dos povos originários que a sociedade civil encontrará caminhos para resistir e reagir à emergência climática.
Para mergulhar mais nessa reflexão, super recomendamos ler a entrevista exclusiva da Jornalista Amélia Gonzalez com Noam Chomsky: ‘Gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática’; e as instigantes Notas para uma revolução agroecológica, do escritor e sociólogo chileno Laurence ‘Moro’ Maxwell

Claudio Barría Mancilla é Educador, músico e pesquisador chileno radicado no Brasil desde 1995. Doutor em Educação pela UFF, é sócio-fundador da Pluriverso Coletivo, onde coordena o Núcleo de Pesquisa experimental em Arte e Ciências Humanas (NuPACh), idealiza a plataforma de Educonexão Pluriverso Diálogo de saberes e é Editor chefe da Revista Pluriverso.






