ISSN 2764-8494

ACESSE

CyberCultura, T.I. e colabs
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Hacktivismo e ancestralidade? O que é a luta por soberania digital

Vivemos um tempo em que “estar conectado” deixou de ser um luxo técnico para se tornar a própria pele da experiência social. Se você está lendo esta matéria na Pluriverso, sabe que a internet não é apenas um “lugar onde postamos coisas”, mas um território em disputa. O que antes chamávamos de cibercultura — aquele termo que Pierre Lévy popularizou para descrever a cultura que emerge da conexão entre computadores e humanos — hoje é um complexo e desigual campo de batalha onde movimentos sociais tentam desenhar novos mundos enquanto gigantes de tecnologia tentam cercar o horizonte com algoritmos.

Mas como foi que saímos dos fóruns de discussão dos idos de 1990 para o hacktivismo dos Anonymous ou para a força ancestral de Samela Sateré Mawé no Instagram? Certamente, por espaço e foco, não cabe aqui aqui retomar toda essa rica e surpreendente história que entrelaça lutas sociais, Arte, política e algoritmos. Todavia, vamos mergulhar em parte dessa evolução digital, entendendo que o ciberativismo não é só apertar um botão de “curtir”, mas uma reconfiguração profunda da política.

A Cibercultura como território de vida

Antes de mais nada, precisamos entender que a cibercultura não é algo separado da “vida real”. De fato, como aponta Yan Soares Santos em seus estudos sobre a história digital, a cibercultura deve ser vista como um território da história vivida. É, sem dúvida, um espaço onde sujeitos são formados, e se  lá sujeitos se fazem, é um espaço em disputa que deve ter o foco de quem trabalha com educação e juventude. Nesse sentido, não é apenas uma ferramenta de apoio; mas um ambiente onde a educação, a política e a cultura acontecem simultaneamente.

Michelle Pascoal Maia e Ana Kalina Araújo de Souza, ao analisarem a Revolta do Busão em Natal (RN), mostram que essa mudança é geracional e técnica. Em 2012, o que começou no Facebook transbordou para as avenidas. Ali, o ciberativismo provou que a rede é um “instrumento mobilizador”. Milhares de pessoas não foram às ruas apenas porque leram um post, mas porque a rede permitiu uma forma de organização horizontal e veloz que as estruturas tradicionais (como partidos ou sindicatos verticais) muitas vezes não conseguem acompanhar.

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Do “Clickivismo” ao Hacktivismo: O poder do anonimato

Muitas vezes, o senso comum critica o ativismo digital chamando-o de “slacktivism” (ativismo de sofá). Mas quando olhamos para o hacktivismo, a conversa muda de tom. O pesquisador Murilo Bansi Machado nos lembra que grupos como o Anonymous Brasil transformam o código de computador em arma política.

Assim, o hacker não é o vilão do filme de ficção científica; na ética hacker descrita por nomes como Pekka Himanen, o foco está na paixão, na criatividade e no compartilhamento livre de informação. Quando os Anonymous entram em cena, eles não estão apenas “derrubando sites”. Eles estão praticando uma forma de resistência nas “sociedades de controle”. O anonimato, que as Big Techs tentam destruir para nos vender anúncios, torna-se para o ativista hacker a única forma de proteção contra a vigilância estatal e corporativa. É a política feita na sombra para iluminar o que os poderosos querem esconder.

Essa luta pela transparência radical ganha contornos dramáticos quando olhamos para casos de impacto global que mudaram a história recente. É impossível falar de hacktivismo sem citar a coragem de figuras como Julian Assange e o WikiLeaks. Eles expuseram as entranhas das guerras e da diplomacia das grandes potências, ou Edward Snowden, que revelou como o governo dos EUA vigiava cidadãos ao redor do mundo. Eles seguem a trilha aberta por pioneiros como Daniel Ellsberg, que décadas antes usou a “tecnologia” da fotocopiadora para vazar os papéis do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã. Esses “whistleblowers” (denunciantes) mostram que, na era digital, um arquivo vazado pode ter mais impacto que um exército, transformando a informação no recurso mais valioso e vigiado do planeta.

O Ciberativismo Indígena: Ancestralidade Conectada

 Colagem por C. Barría com imagens de divulgação de Ailton krenak, Anapuaka Tupinambá, Daniel Mundurukú, Samela Sateré Mawé e Tukumã Pataxó. coletadas em redes sociais.
Colagem por C. Barría com imagens de divulgação de Ailton krenak, Anapuaka Tupinambá, Daniel Mundurukú, Samela Sateré Mawé e Tukumã Pataxó. coletadas em redes sociais.

Talvez um dos exemplos mais potentes de como a cibercultura pode ser descolonizada venha dos povos originários. Mariana de Fátima Melo Viana traz um estudo fascinante sobre o uso do Instagram por influenciadores indígenas como Samela Sateré Mawé e Tukumã Pataxó.

Aqui, o ciberativismo quebra o estereótipo colonial do “índio isolado”. Pelo contrário, eles usam a rede para difundir a (ciber)cultura indígena, fazendo do algoritmo um aliado na resistência cultural. Ao postarem sobre o Marco Temporal ou sobre a beleza de seus rituais, eles ocupam o imaginário digital com narrativas que a mídia tradicional sempre silenciou. É a tecnologia servindo à ancestralidade, e não o contrário. É o que podemos chamar de “inclusão digital com identidade”.

Essa ocupação digital vai além das redes sociais de imagem e alcança a construção de infraestruturas próprias de comunicação. Nomes como Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe, fundador da Rádio Yandê, personificam o ciberativismo como etnomídia, criando espaços onde o protagonismo indígena é a regra, não a exceção. Além disso, a visibilidade digital permitiu que o pensamento de lideranças e intelectuais como Ailton Krenak e Daniel Munduruku transbordasse as páginas dos livros para se tornar viral. Suas críticas ao modelo de “humanidade” que consome a Terra encontram no ciberespaço uma caixa de ressonância poderosa. Poderia se dizer que, mesmo no seu paradoxo, a web pode ser também um lugar para “adiar o fim do mundo”, como propõe Krenak.

Mas é importantíssimo lembrar que todo esse movimento que vem entrelaçando as lutas e os saberes da ancestralidade indígena com renovada atualidade política na web, tem acontecido a contrapelo da realidade da Conectividade indígena, como destaca no artigo partilhado por Anápuáka nesta revista.

A Ameaça: Colonialismo de dados e modulação algorítmica

Nem tudo são flores no jardim digital. Se por um lado temos a potência da rede, por outro temos o que Sergio Amadeu da Silveira e outros pesquisadores chamam de Colonialismo de Dados.

Hoje, nossas vidas são transformadas em fluxos de dados que alimentam a “guerra neoliberal”. As chamadas Big Techs (Google, Meta, Amazon) não apenas observam o que fazemos; elas usam a modulação algorítmica para condicionar nossa existência. Como explica a obra organizada por Cassino, Souza e Amadeu, os dados são o novo petróleo, e o Sul Global está sendo “minerado” novamente.

Esse colonialismo digital opera de forma invisível. Ele decide o que você vê no feed, quem tem voz e quem é silenciado. Se não tomarmos cuidado, o ciberativismo pode acabar preso em uma “bolha” desenhada por quem lucra com a nossa polarização. Por isso, a luta por soberania digital é a pauta mais urgente dos movimentos sociais contemporâneos. Ficar livre das Big Techs, como sugere Sergio Amadeu, não é apenas um desejo técnico, é uma necessidade de sobrevivência democrática.

A Pluriverso como anti-plataforma: soberania e descolonização

É no coração dessa trincheira algorítmica que a Pluriverso se posiciona não apenas como mais um site, mas como uma anti-plataforma. Enquanto as Big Techs capturam trajetórias para modulação de comportamento, a Pluriverso propõe a Educonexão — uma abordagem pedagógica que prioriza a convergência de trajetórias dos territórios na produção de conhecimento politicamente pertinente. Aqui, o foco não é o “usuário” como produto, mas o sujeito histórico inserido em sua realidade local.

A partir da ideia de superar o modelo frio da EaD (Educação a Distância) tradicional, a Educonexão entrelaça a educação popular de Paulo Freire, a comunicação comunitária e o webdesign para construir processos orgânicos e colaborativos. É a tentativa de criar uma tecnologia da memória que respeite o humano e promova o “diálogo de saberes”.

Idealizada para fortalecer as ações de organizações que geram impacto social e socioambiental positivo, na Pluriverso, a rede não é usada para capturar dados, mas para potencializar encontros e escalar impacto social. É o que Cicilia Peruzzo chama de “comunidades emergentes de conhecimento local” só que ampliando a ideia rede como comunidade comunicativa (Dussel, Castels). Desafiar a cibercultura dominante significa criar espaços onde a comunicação seja popular, comunitária e alternativa.

Além da soberania de dados

O posicionamento da Pluriverso pela soberania de dados é, ao mesmo tempo, prático e político. Ao optar radicalmente pelo uso de software livre, a plataforma herda e fortalece a ética do compartilhamento e da transparência da cibercultura. Mais do que isso: ao manter seus servidores localizados no Brasil, a Pluriverso ataca diretamente o colonialismo digital. 

Ter servidores em solo nacional significa que os dados de nossa rede, de nossos movimentos e de nossas memórias não estão sujeitos a jurisdições estrangeiras ou aos interesses de lucro do Vale do Silício. Em coerência, e diferente de todas as plataformas das BigTechs, os dados dos percursos formativos oferecidos pelas organizações na Pluriverso pertencem, por padrão, a elas. Isso inclui conteúdos, anexos, relatórios de participação, frequência, testes, etc. É soberania digital.

Essa proposta de descolonização digital vai além da infraestrutura. A Educonexão opera na convergência entre aqueles que Pierre Levy definiu como os três tempos do espírito: a oralidade, a escrita e a informática, que ao mesmo tempo são tecnologias da memória e da inteligência humana. Mas na educonexão esse entrelaçamento é feito sob a lente da educação popular, de uma abordagem freiriana.

Assim, diferente das redes comerciais que isolam os indivíduos em bolhas, a Pluriverso busca potencializar processos coletivos, onde a tecnologia serve para organizar e dar visibilidade às práticas orgânicas das comunidades. É um convite para que o “fazer-se” digital seja um ato de polifonia de saberes e de fortalecimento das territorialidades.

O Lugar do Humano no Futuro Digital

Para encerrar este percurso, precisamos voltar à pergunta que colocamos logo no lançamento da nossa revista, lá pra 2021: Qual é o lugar do humano na internet?

Eugênio Trivinho, presidente da AbCiber, nos alerta que os estudos de cibercultura no Brasil estão na dianteira para tentar entender essa “mutação fenomenal” da sociedade. O ciberativismo evoluiu. Ele deixou de ser apenas uma ferramenta para marcar protestos e tornou-se a própria forma como vivemos e resistimos.

O futuro dos movimentos sociais depende da nossa capacidade de “descolonizar” as redes. E isso passa por:

  1. Apoiar tecnologias livres (software livre, Código aberto) e redes descentralizadas (fugindo das Big Techs).
  2. Valorizar os saberes locais e as narrativas de grupos historicamente marginalizados (como o ativismo indígena).
  3. Desenvolver novas abordagens metodológicas para a colaboração, a horizontalização e a descentralização. Isso pode ser feito a partir de do diálogo entre pesquisas de base científico tecnológica e os saberes locais.
  4. Entender o código como política, apoiando o hacktivismo que luta por transparência e dignidade.

O ciberativismo não é o fim da política nas ruas e nas praças, mas talvez, um novo fôlego que ela estava precisando. Os espaços digitais desenvolvidos para nos raptar da realidade em direção a uma distopia das plataformas alimentada pelo vale do Silício, devem e podem ser substituídos por espaços que operem de forma complementar, na ampliação da nossa superfície de contato. No final das contas, o algoritmo pode ser programado para vender, mas o desejo humano de liberdade é o que realmente faz a rede pulsar.

Na Pluriverso, continuamos de olhos abertos para essas conexões. Porque se o futuro é digital, ele precisa ser, acima de tudo, plural e humano.

Referências e Inspirações:


Claudio Barría Mancilla é Educador, músico e pesquisador chileno radicado no Brasil desde 1995. Doutor em Educação pela UFF, é sócio-fundador da Pluriverso Coletivo, onde coordena o Núcleo de Pesquisa experimental em Arte e Ciências Humanas (NuPACh), idealiza a plataforma de Educonexão Pluriverso Diálogo de saberes e é Editor chefe da Revista Pluriverso.

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