A crise civilizatória que vivemos na atualidade evidencia que a ciência, por si só, não é capaz de solucionar os problemas do mundo, mesmo com o maior acúmulo de conhecimentos científicos da história humana, não conseguimos erradicar problemas básicos como a fome e o saneamento básico.
Morin (2003) já classificava a situação do mundo como uma policrise, um conjunto de problemas – da saúde, da demografia, do meio ambiente, de modos de vida, de civilização, de desenvolvimento – que se sobrepõem e se entrelaçam a crises da modernidade, das sociedades, do capitalismo. Dentro desse emaranhado, não haveria um problema maior que pudéssemos pensar em atacá-lo com prioridade, pois há uma “inter-solidariedade complexa” dentre eles que estabelece uma “crise geral do planeta” (Morin, 2003, p. 95).
A lógica ocidental de reprodução da vida, que associa a prosperidade humana à posse de bens de consumo e se sustenta no avanço da tecno-ciência, revela sinais de esgotamento. Incapaz de integrar de forma igualitária toda a humanidade como consumidora, essa lógica mostra-se predatória: devora mundos, aplasta diversidades, concentra riquezas em mãos de poucos e amplia a miséria de muitos. Ergue impérios enquanto cria abismos — periferias planetárias que transformam terras e pessoas em instrumentos a serviço da manutenção e concentração de poder.
É necessária uma tomada de consciência que nos indique outros devires possíveis. Não se trata de controlar o avanço científico, mas de posicioná-lo com criticidade e compromisso no combate a desigualdades, questionar para onde ele nos está levando e repensar a quem ele vem servindo, resistindo contra forças que nos impõem um proclamado progresso sem compromisso com as pessoas, em especial os mais vulneráveis.
Justiça cognitiva e socioambiental, o retorno aos saberes ancestrais e territoriais

Não existem receitas prontas para enfrentar as crises do mundo. Se acreditamos, por tanto tempo, que o desenvolvimento econômico traria igualdade social e felicidade aos povos — hoje constatamos que não — talvez este seja o momento de retorno. Retorno ao simples, a raízes ancestrais e a tecnologia comprometidas com a superação das desigualdades e opressões; e o caminho da construção de uma ciência comprometida com a equidade social e a justiça socioambiental.
É aqui que a Educação Ambiental de Base Comunitária ganha relevo ao buscar justiça cognitiva no sentido de reconhecer as pedagogias enraizadas nos territórios, aquelas que sempre aconteceram, nos saberes dos oprimidos que a ciência hegemônica privada e à serviço dos poderosos insistiu em invisibilizar. Elas estão nos ensinamentos das avós, das rezadeiras e benzedeiras, dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, favelados, nos quintais e terreiros…que nascem do chão da terra e se materializam na oralidade, nas cantigas, nas roças, nos rios, nos sentidos do que é orgânico, do que é nosso enquanto conexão essencial.
Essa educação não se ensina em sala de aula, mas se aprende em confluência com a luta dessas populações que, desde a colonização, resistem para não terem apagados seus legados, desde sempre saqueados e remodelados para se parecerem com a estética imposta no modelo do poder. É também um posicionamento por justiça ambiental, pois essas sociedades desenvolvem epistemologias e saberes populares com base em uma identidade que se constrói num pertencimento territorial (Sánchez; Salgado; Oliveira, 2020), se relacionando intrinsecamente com a natureza e estabelecendo relações de conexão. Bem diferente da lógica de ter, a relação se faz no pertencer.
Resistência latino-Americana e lutas socioambientais pelo território
Nesse contexto, a América Latina tem muito a nos ensinar. Simultâneo ao histórico processo de colonização, seguido aos efeitos que as colonialidades nos impõem, junto ao modelo econômico extrativista e primário-exportador que relega populações e territórios a danos ambientais e escassez econômica, a região reserva, também, memoráveis resistências, pois onde há exploração, há luta.
Com o sentido identitário particularmente aterrado nos territórios, e tendo estes despossuídos por poderes alheios, citamos como exemplo as históricas lutas sociais latino-americanas dos anos 1990 e 2000, que se alimentaram de propostas ecologistas devido à escassez de recursos hídricos para camponeses, ao desmatamento e à poluição provocados pela mineração […] e pela atividade petrolífera, ao esgotamento dos recursos pesqueiros após anos de superexploração, à poluição urbana, à redução da biodiversidade silvestre e agrícola, à perda da qualidade e disponibilidade de água e, entre outras razões, aos efeitos do aquecimento global (Acosta; Brand, 2018).
O campo político-pedagógico da educação ambiental de base comunitária (EABC) e o GEASur

O Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde El Sur – GEASur, sediado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, se dedica a pensar o conceito de Educação Ambiental de Base Comunitária (EABC), assim como se fazer visibilizar e reconhecer essas práticas desde o chão dos territórios até a universidade pública, no sentido de ratificar a importância de uma ecologia de saberes, onde confluam conhecimentos tradicionais e acadêmicos, com vistas a fortalecer a luta por uma ciência que dialogue e tenha compromisso com o povo. Que se empenhe menos no desenvolvimento e se incline ao envolvimento, como diria o mestre Nêgo Bispo.
No sentido de uma educação popular, conectada com a vida, que, corajosa, propõe ao povo a reflexão sobre si mesmo, seu tempo e suas responsabilidades (Freire, 1967). É passada a hora de nos envolvermos em pensar soluções para problemas reais, mas de maneira profundamente conectada com os que mais sofrem as consequências dessas crises que se interconectam e nos levam a labirintos cada vez mais intransponíveis.
Assim, a EABC é pensada como um campo político-pedagógico de articulação entre a perspectiva da Educação Ambiental Crítica e Transformadora com os acúmulos de um legado da América Latina de teorias e práticas desenvolvidas em parceria entre intelectuais orgânicos, setores populares e movimentos sociais com atuação no Sul Global (Sánchez; Salgado; Oliveira, 2020). Ela se constrói nos territórios, em diálogo com os sujeitos, suas memórias e lutas.

Práticas comunitárias e experiências territoriais transformadoras no Rio de Janeiro
No âmbito do GEASur, vimos acumulando experiências na caminhada com as mais diversas experiências comunitárias, nos engajando e envolvendo, formando redes que se fortalecem, se fazem e refazem no caminhar e na conexão de uma diversidade de práticas populares. Apresentamos algumas delas:
- A agricultura urbana de base agroecológica é uma possibilidade como prática social mobilizadora na construção de processos pedagógicos da Rede Carioca de Agricultura Urbana (CAU), que se compromete com a segurança alimentar e luta contra as injustiças socioambientais em territórios periféricos da cidade do Rio de Janeiro, sendo uma referência para práticas educativas transformadoras (Martins; Montesano; Santos; Maneschy; Miranda; Cruz, 2026);
- No contexto de exclusão da cultura às populações subalternizadas, caminhamos com as bibliotecas comunitárias como potência comprometida com a luta por direitos. O reconhecimento desses espaços como locais de encontro os torna lócus privilegiados para ações de educação ambiental. Nesse contexto, acompanhamos de perto as ações da Rede Baixada Literária, que surgiu da luta pelo direito à leitura em bairros periféricos de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (Betancourt; Junior; Sánchez; Escalante; Cruz, 2026);
- A experiência em algumas favelas se dá pela atuação na promoção de cursos contextualizados às demandas locais comunitárias. Dadas realidades de precariedades e ausências de serviços públicos, e ao mesmo tempo da emergência de potencialidades que se demonstram no engajamento comunitário para a solução de seus próprios problemas, lideranças locais se empenham no fazer coletivo pelo território, seja por projetos sociais ou outros meios. Nesse sentido, atuamos no desenvolvimento de metodologias participativas que formam redes que se articulam por diálogos e ações comprometidas entre diversos territórios, partilhando problemas e soluções. Como exemplo, citamos trabalhos realizados na Favela Borda do Mato, no Complexo do Andaraí (Bredariol; Lopes; Macedo; Resende; Martins; Sánchez, 2026); e atuação no contexto do Programa Favela-Parque com as comunidades Prazeres, Guararapes, Cerro-Corá e Vila Cândido, que fazem parte do Programa Socioambiental do Parque Nacional da Tijuca, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade/ICMBio.
Outras perspectivas em EABC podem ser consultadas no Observatório de Educação Ambiental do Estado do Rio de Janeiro, um projeto interinstitucional de pesquisa e extensão que identifica e sistematiza experiências socioambientais e educativas produzidas em favelas, aldeias, quilombos, assentamentos e outros territórios populares no estado.
Educação Ambiental Tradicional e os aportes da educação ambiental desde El Sur
O campo da Educação Ambiental, em sua vertente mais tradicional, tem sido fortemente marcado por perspectivas ocidentalizadas. Nessa abordagem, a educação ambiental é concebida como uma pedagogia voltada à preservação e conservação dos ecossistemas, ou como um instrumento de gestão da natureza enquanto recurso, com foco no controle e mitigação de impactos. Tal perspectiva tende a enfatizar a responsabilização individual pelos problemas ambientais, ao mesmo tempo em que desconsidera a degradação sistemática promovida por grandes indústrias e estruturas econômicas hegemônicas.
A EABC, na perspectiva de uma Educação Ambiental desde el Sur, possui a potência de atuar como uma perspectiva situada às realidades dos povos latino-americanos dentro do campo da Educação Ambiental. Nesse sentido, além de enriquecer o campo como um todo a partir de práticas alinhadas aos territórios, ela fortalece a justiça socioambiental. O entendimento das realidades socioambientais do Sul global como uma região historicamente explorada para atender demandas de potências hegemônicas é crucial para que se promova uma educação contextualizada, que revele as injustiças e desigualdades a que populações e territórios são expostos até a atualidade, como herança do colonialismo.
Dessa maneira, defendemos uma educação contextualizada com as realidades, que contemple a complexidade dos problemas envolvidos nas múltiplas crises da atualidade, para uma sociedade que possa entender seu ambiente como reflexo de estruturas mais amplas, que envolvem todo um histórico e seus processos políticos, econômicos, sociais, raciais, de classe e gênero. Somente ao nos entendermos como povo, teremos consciência de nossas possibilidades, como resultado de nossa inserção no mundo como fazedores de história e não como instrumentos. Fazendo-nos críticos, captamos as tarefas de nosso tempo, renunciamos tanto ao otimismo ingênuo como ao pessimismo e à desesperança (Freire, 1967).
Compreendendo as totalidades, percebendo-nos como povos de tradições ancestrais e retornando a elas como premissas de um futuro, recorremos ao conceito de terrexistência, que seria uma “condição constitutiva ecológico-existencial dos viventes capazes de compor sociedades com a natureza”. Terrexistir seria “um devir mais que humano”, “uma dimensão responsiva e responsável em termos biocósmicos que se inscreve como uma das tarefas da descolonização” (Rufino; Camargo; Sánchez, 2020, p. 4). Pela defesa do direito a existir para todas as espécies, humanas e mais que humanas, pelo encantamento da vida.
Que, nos vendo com nossos próprios olhos, tornemo-nos criticamente otimistas, com uma esperança que seja catalisadora de ações para impulsionar sonhos.
Leia também a matéria, A urgência da educação socioambiental no olhar da Educação Popular e saiba o que é, e por que é tão importante a Educação Socioambiental em uma perspectiva da Educação popular perante a crise climática
Referências:
ACOSTA, Alberto; BRAND, Ulrich. Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista. São Paulo: Elefante, 2018.
BETANCOURT, Jaime Andres Valencia; JUNIOR, Alberto Calil Elias; SÁNCHEZ, Celso; ESCALANTE, Isadora Cristal; CRUZ, Nayi Carolina Molina. Desde el Sur: Explorando as bibliotecas comunitárias de Abya Yala para a construção de uma Educação Ambiental de Base Comunitária.
In: Educação Ambiental de Base Comunitária: reflexões e debates [livro eletrônico] / organizadores Marcelo Aranda Stortti, Alberto Calil Elias Junior, Celso Sánchez. – Macaé, RJ: Editora NUPEM/UFRJ, 2026.
BREDARIOL; Isaura de Oliveira; LOPES, Ísis Ferreira; MACEDO, Joana Silva; RESENDE, Fernanda Perry; MARTINS, Maria Emília; SÁNCHEZ, Celso. Tecendo nas bordas das matas, entre a floresta e a favela: a experiência do Curso de Educação Ambiental de Base Comunitária “Acredita, Morador!”. In: Educação Ambiental de Base Comunitária: reflexões e debates [livro eletrônico] / organizadores Marcelo Aranda Stortti, Alberto Calil Elias Junior, Celso Sánchez. – Macaé, RJ: Editora NUPEM/UFRJ, 2026.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1967.
MARTINS, Paolo de Castro; MONTESANO, Bernadete; SANTOS, Ana Paula da Cruz; MANESCHY, Diogo Majerowicz; MIRANDA, Luiz Fernando Pereira; CRUZ, Yuri Lopes. Pedagogias produzidas no território: reflexões a partir da Rede Carioca de Agricultura Urbana. In: Educação Ambiental de Base Comunitária: reflexões e debates [livro eletrônico] / organizadores Marcelo Aranda Stortti, Alberto Calil Elias Junior, Celso Sánchez. – Macaé, RJ: Editora NUPEM/UFRJ, 2026.
MORIN, Edgar. Terra-Pátria / Edgar Morin e Anne-Brigitte Kern / traduzido do francês por Paulo Azevedo Neves da Silva. — Porto Alegre: Sulina, 2003.
RUFINO, Luiz; CAMARGO, Daniel Renaud; SÁNCHEZ, Celso. Educação Ambiental desde El Sur: A perspectiva da Terrexistência como Política e Poética Descolonial. Revista Sergipana de Educação Ambiental | REVISEA, São Cristóvão, Sergipe, Brasil V. 7, Número especial, 2020 | ISSN Eletrônico: 2359-4993
SÁNCHEZ, Celso; SALGADO, Stephanie Di Chiara; OLIVEIRA, Sônia Terezinha. Aportes da Ecologia Política para a construção de uma Educação Ambiental de Base Comunitária no contexto latino-americano: narrando a experiência de um curso de extensão universitária. Revista de Educação Ambiental, vol. 25, n. 1, 2020.:
Maria Emília Martins Professora da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Doutoranda em Meio Ambiente pela UERJ, mestra em Educação pela UNIRIO, pedagoga e cientista ambiental. Integrante do Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde el Sur/ GEASur-UNIRIO.
Celso Sanchez Biólogo professor da Unirio, Coordenador do GEASur e do Observatório da Educação Ambiental de Base Comunitária







