ISSN 2764-8494

ACESSE

Paulo Freire e comunicação popular
Seu tempo de leitura: 6 minutos

Paulo Freire na comunicação popular e comunitária brasileira

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Na revista Pluriverso, buscamos traduzir a complexidade das dinâmicas sociais em reflexões sobre a emancipação humana. Assim, além de publicarmos artigos de colaboradores diretos e do trabalho de curadoria de conteúdos feitos pelo nosso coletivo, produzimos também pequenas matérias de divulgação de artigos acadêmicos e de livros. A comunicação popular é um dos assuntos que nos mobilizam, pois é nos movimentos sociais e seus entrelaços que está a nossa origem e o nosso Sul.

Esta matéria se enquadra nesse esforço de tecer pontes entre a produção de saberes da sociedade civil e a produção de conhecimento dos movimentos em diálogo com as ciências, em especial as humanas e sociais, mas não apenas. Apresentamos então, nesse intuito, uma leitura nossa do artigo Ideias de Paulo Freire aplicadas à Comunicação popular e comunitária, da prfa. Dra. Cicilia M. Krohling Peruzzo. Para acessar o texto na íntegra clique no link contido no título da obra. O artigo foi publicado, em sua versão revisada, na Revista FAMECOS, da PUCRS, em 2017,

Paulo Freire, para muito além da cartilha

Um dos cruzamentos mais férteis da nossa ciência social hoje, reside no entrelaçamento da pedagogia crítica e os processos comunicacionais. Em uma investigação analítica detalhada, Peruzzo examina a convergência entre a pedagogia libertadora de Paulo Freire e as práticas de comunicação popular e comunitária em movimentos sociais brasileiros. A autora examina como conceitos de diálogo, conscientização e protagonismo fundamentam a atuação de organizações sociais. Entre outras, o Polo Sindical da Borborema, a cooperativa COPAVI e o movimento UNAS em Heliópolis.

Paulo Freire Na Comunicação Popular
Paulo Freire – Wikiquote

O texto que estamos analisando apresenta como as ideias freirianas extrapolaram os limites das salas de aula para fincar raízes profundas nas práticas de movimentos populares no Brasil. A análise demonstra que a comunicação popular não opera apenas como um mero suporte técnico de transmissão, mas sim como um espaço essencial de construção de conhecimento, conscientização e transformação da realidade concreta.

A linha de frente da investigação: três cenários de resistência

Para compreender o alcance real dos pressupostos freirianos na sociedade civil, o estudo de Peruzzo fundamenta-se em pesquisas bibliográficas, documentais e entrevistas em profundidade com lideranças comunitárias sob a metodologia de relatos de práticas. A pesquisa de campo debruçou-se sobre três experiências emblemáticas que trazem o senso democrático como diretriz prática cotidiana.

O primeiro cenário investigado é o Polo Sindical da Borborema, localizado no semiárido da Paraíba. O segundo consiste na Cooperativa de Produção Agropecuária União da Vitória (COPAVI), um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) situado em Paranacity, no Paraná. Por fim, a pesquisa analisou o vigoroso movimento comunitário de Heliópolis, em São Paulo, articulado pela União de Núcleos e Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS).

Em todos esses espaços, a investigação detectou uma governança colaborativa expressa em reuniões, discussões abertas e tomadas de decisão coletivas. Segundo a autora, existem diversos elementos que explicam o compromisso dessas lideranças e um conjunto de princípios no modo de organização nas lutas sociais. Um deles estaria no envolvimento precedente de muitos deles com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais sociais da Igreja Católica alinhadas à Teologia da Libertação.

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Cooperativa de Produção Agropecuária União da Vitória (COPAVI)

Os conceitos freirianos redefinindo a comunicação

A grande contribuição da obra de Peruzzo é decodificar quais eixos da pedagogia de Paulo Freire passaram a permear organicamente a práxis da comunicação comunitária. Um dos pontos fulcrais é a democratização da cultura. Na ótica freiriana, democratizar a cultura não significa massificar ou popularizar de forma paternalista os bens culturais concebidos pelas elites acadêmicas, mas sim validar a consciência de que o povo é, intrinsecamente, um produtor cultural, visto que a cultura engloba toda criação humana.

Paralelamente, a busca pela consciência crítica estabelece que o ato de ler o mundo antecede e se estende muito além da decodificação da palavra escrita. O conhecimento, portanto, não é algo que se estende verticalmente de um suposto “sabedor” para os “não sabedores”. Ele se constitui nas dinâmicas relacionais entre o ser humano e o mundo, aperfeiçoando-se por meio da problematização da realidade. Nessa perspectiva, a transição histórica da condição de “massa” desinformada para a de “povo” politizado ocorre justamente quando o sujeito rompe com a histórica Cultura do Silêncio colonial e passa a intervir na história de forma consciente.

A essência do diálogo contra o difusionismo

No cerne da comunicação popular está o conceito freiriano de comunicação como diálogo, detalhado primordialmente na clássica obra Extensão ou Comunicação?. Freire tece críticas contundentes ao “difusionismo” de matriz norte-americana — a chamada “comunicação para o desenvolvimento” —, que enxerga o ato comunicativo meramente como a extensão ou transmissão vertical de informações técnicas. Para ele, esse modelo resulta em uma verdadeira invasão cultural que converte o receptor em um objeto passivo.

Em contraposição, a comunicação humana autêntica exige reciprocidade e o reconhecimento do outro como sujeito de direitos e saberes. Como bem assinala o estudioso Venício Lima, essa visão transcende o diálogo restrito à esfera psicológica individual e o projeta como uma ação social voltada para a mudança estrutural. Impedir esse fluxo dialógico equivale a desumanizar as pessoas, reduzindo o ser humano à condição de coisa.

Nas três experiências mapeadas por Peruzzo, a comunicação se materializa prioritariamente de maneira face a face, por meio da expressão oral, interpessoal e em dinâmicas grupais. A apropriação subsequente de mídias tecnológicas — como jornais locais, rádios comunitárias, vídeos e internet — serve para amplificar as vozes subalternizadas. O objetivo do uso dessas tecnologias é ecoar as demandas e concepções de mundo provindas das bases da sociedade, visando sensibilizar a opinião pública, promover debates e semear consensos em busca de uma nova hegemonia social.

 Comunicação Popular: Movimento Comunitário De Heliópolis, Em São Paulo
27ª Caminhada pela Paz de Heliópolis mobiliza comunidade por cultura de paz no território

Práticas sociais, educação e mudança coletiva

A pesquisa evidencia que as lideranças e militantes dessas organizações não replicam mecanicamente os métodos de alfabetização de adultos criados por Freire, mas incorporam os princípios éticos e políticos que sustentavam a sua pedagogia. A comunicação comunitária surge, assim, indissociável de estratégias de educação não formal e informal.

Esse modelo possui fortes afinidades históricas com a metodologia pastoral do ver-julgar-agir, formulada originalmente pelo cardeal Joseph Cardijn (fundador da Juventude Operária Católica) e amplamente disseminada no Brasil pelo Movimento de Educação de Base (MEB) e pelas CEBs. Esse método estipula que o ponto de partida para qualquer transformação deve ser a observação profunda da realidade concreta e imediata local.

No cotidiano do Polo da Borborema, da COPAVI e de Heliópolis, o impacto dessa comunicação-ação é profundo e perceptível em duas dimensões:

  • No plano individual: Os sujeitos que se engajam nesses processos desenvolvem autoconfiança, aprimoram a oratória pública, elevam a autoestima, aprendem a trabalhar em dinâmicas grupais e ganham discernimento crítico para identificar os mecanismos de manipulação da mídia convencional.
  • No plano coletivo: O intercâmbio horizontal de saberes converte-se em um “alimento político” e motor de ação no espaço público. Isso impulsiona melhorias práticas nas condições de vida, a apropriação consciente de novas tecnologias, a defesa da soberania alimentar — como a rejeição de sementes transgênicas no semiárido paraibano — e a consolidação do poder popular.

Considerações nossas

As realidades dessas comunidades não se configuram como oásis perfeitos ou isolados das contradições estruturais e macroeconômicas do contexto em que se situam. Contudo, a práxis histórica construída ao longo de décadas demonstra que a sociedade civil é perfeitamente capaz de acelerar as transformações necessárias quando assume o papel de sujeito da sua própria história.

Seja convertendo o trabalho em um modelo coletivo de assentamento agrícola (COPAVI), descobrindo o potencial do pequeno produtor rural para prosperar no semiárido (Polo de Borborema) ou transformando a realidade de uma favela em uma verdadeira “cidade educadora” (UNAS-Heliópolis), as ideias de Paulo Freire continuam vibrantes. Elas nos provam, científica e empiricamente, que comunicar de forma dialógica é, acima de tudo, um ato de libertação.

Agora, é importante para nós, frisarmos a importância e o caráter da relação íntima entre a práxis dos movimentos sociais e o pensamento de Paulo Freire, por sobre a mera observação do impacto ou alcance dos princípios freirianos na sociedade civil. O texto analisado é interessante também nesse sentido, pois embora apresente uma pesquisa centrada no pensamento de Paulo Freire e sua pedagogia de libertação, parte do princípio de que os movimentos sociais são portadores de saberes e produtores ativos de uma práxis transformadora.

Em outras palavras, Paulo Freire foi, sim, um grande intelectual, cuja contribuição à educação e à comunicação popular é inestimável, mas longe de ter “inventado” a educação popular, ele fazia parte dela e o seu pensamento é também o produto de um movimento que estava já, na época, presente em toda nossa América. Esse entendimento, que dialóga com a compreensão de que a convergência dos saberes dos coletivos em seus territórios em torno de uma causa ou ideia-força produz conhecimento politicamente pertinente, é base para o conceito de educonexão, tão caro para o desenvolvimento da Plataforma Pluriverso;


Claudio Barría Mancilla é músico, doutor em Educação pela UFF, pesquisador e membro fundador do Coletivo Pluriverso e do Conselho Editorial da Revista Pluriverso.

Cicilia M. Krohling Peruzzo. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fez pós-doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México. CV Lattes

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